Knives and Skin é um filme que não teme se apresentar como é: uma espécie de Twin Peaks juvenil misturado com High School Musical. A combinação peculiar é assinada pela diretora e roteirista Jennifer Reeder, que tem em sua carreira dois longas e quase 20 curtas. Seus interesses geralmente gravitam em torno de personagens femininas e seu lugar no mundo, o que faz de sua filmografia bastante feminista. Aqui, não é diferente: é o desaparecimento de uma jovem que trará uma série de transformações a uma cidade pequena, em especial a um grupo de garotas.
O sumiço de Carolyn Harper (Raven Whitley) catalisa uma onde de paranoia, num lugar não identificado no Illinois, despertando sentimentos estranhos, medos nem sempre infundados e trazendo agitação a uma cidade que parece adormecida e habitada por tipos estranhos. Cada segredo que vem à tona é um peça no quebra-cabeças do desaparecimento. O que aconteceu com a adolescente? Sua mãe, Lisa (Marika Engelhardt), não para perguntar onde está sua filha. E ninguém tem uma resposta.
O namorado da garota, Andy (Ty Olwin), talvez saiba seu paradeiro. A irmã dele, Joanna (Grace Smith), é profundamente afetada pelo desaparecimento, assim como sua amigas Laurel (Kayla Carter) e Charlotte (Ireon Roach). Reeder arma quase um ambiente típico de uma high school americana, algo que poderia até ter saído de um filme de John Hughes, para subverter a aparente normalidade com um pesadelo tingido em tons de rosa e lilás – duas cores que predominam na fotografia etérea, assinada por Christopher Rejano.
A cidadezinha, assim como o filme, é povoada de pessoas estranhas. Dan (Tim Hopper), pai de Joanna e Andy, trabalhava como palhaço e foi demitido, mas não tem coragem de contar à esposa depressiva, Lynn (Audrey Francis). Ele também tem um caso com Renee (Kate Arrington), que, além de mãe de Laurel, está grávida. Embora paralisada com o sumiço da filha, Lisa tenta retomar sua vida e volta a ensaiar o coral da escola onde todas as jovens estudam.
Reeder coloca em suas personagens o peso, os dilemas e as cobranças que sofrem as jovens mulheres contemporâneas. Estão em cena os namorados idiotas, professores abusivos (inclusive fisicamente), pais e mães negligentes e a escola como uma instituição tóxica, na qual a única coisa que salva é a sororidade. E é a partir do desaparecimento de Carolyn que as demais garotas descobrem o sentido do empoderamento. Com adultos cada vez mais sem rumo, caberá às meninas cumprir papeis que (ainda) não são os delas.
Knives and Skin é um filme assumidamente estranho, com ares de David Lynch, com o propósito de causar estranhamento e, assim, investigar questões de maneiras como um filme exclusivamente realista não seria capaz de fazer. O surreal aqui não é gratuito, mas nem sempre parece organicamente integrado à narrativa. São escolhas que a diretora faz que reverberam visualmente, embora não encontrem uma justificativa dentro da trama.
