Dado como perdido, o iraniano Chess of the Wind reencontrou a luz do dia graças a Martin Scorsese e sua fundação de restauro de filmes clássicos esquecidos, a World Cinema Foundation, em parceria com a Cinemateca de Bolonna. O filme é uma das poucas ficções na carreira do documentarista e poeta iraniano Mohammad Reza Aslani. Originalmente, foi lançado em 1976, em Teerã, onde não foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo banido em seu país nos anos seguintes à Revolução Iraniana de 1979.
Reencontrar esse filme quase cinco décadas depois é a oportunidade de poder fazer a leitura que merece. Este é, acima de tudo, um melodrama, com momentos eventualmente beirando uma telenovela em sua exacerbação das emoções e sentimentos. Formalmente, ao mesmo tempo, é visualmente contido com a poderosa fotografia de Houshang Baharlou, assumidamente inspirada em Barry Lyndon, em tons frios e contrastes com um clima árido e o ar que parece sempre seco.
Não foram poucos os motivos que levaram ao banimento do longa no país – entre eles, personagens femininas fortes e independentes e homossexualidade, temas que desagravam ao regime do aiatolá Khomeini, além da forte influência europeia no filme. A crítica à sociedade do país na época também é proeminente, materializando-se nas disputas de poder dentro de uma mesma família após a morte da matriarca nobre que deixa uma boa herança.
A narrativa se passa nos anos de 1920, próximo ao fim da dinastia Cajar, que governou o país desde o século XVIII. O filme chegou aos cinemas quando a casa que a sucedeu, a Pahlavi, estava com seus dias contados. É claro que a trama fala do passado para abordar o presente, um Irã decadente sob o governo do xá Reza Pahlavi.
Boa parte da história se passa na mansão da família protagonista, e a construção, com sua arquitetura persa imponente e decadente, torna-se uma espécie de personagem em si. Mais do que o palco da ação, onde o colapso do clã que nela habita parece inevitável.
A figura que comanda a família é a lady Aghdas (Fakhri Khorvash), que vive numa cadeira de rodas de madeira, cercada de pessoas interessadas na fortuna que recebeu de sua mãe. Uma figura central é Hadji Amoo (Mohammad-Ali Keshavarz, um ícone do cinema iraniano, e que, anos mais tarde, protagonizaria Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami), o padrasto da herdeira. A outra é a empregada boazinha, interpretada pela estreante Shohreh Aghdashloo, outra grande figura do cinema iraniano que, poucos anos depois, faria O Relatório, também de Kiarostami.
As personagens estão num mundo que reflete a monarquia de seu país, estratificado e de difícil mobilidade social. Aghdas é cercada, especialmente, por homens interessados em seu dinheiro e o que isso pode lhes trazer de bom numa sociedade prestes a ruir. Aslani, que também assina o roteiro, constrói a narrativa num enquadramento de tragédia grega, com um coro, formado por lavadeiras que ficam na fonte em frente à mansão, fazendo comentários sobre a ação.
Chess of the Wind é um filme sobre o passado – que insiste em se repetir nas dinâmicas de poder que não são superadas – num país distante que, estranhamente, pode refletir o presente do século XXI. Visualmente impressionante, e cinematograficamente potente, é uma grande (re)descoberta para a cinefilia mundial.
