04/06/2026
Drama

Chess of the Wind

Após receber uma herança, na Teerã dos anos de 1920, nos últimos suspiros da dinastia Cajar, uma mulher precisa lidar com um grupo de pessoas de sua família interessadas no dinheiro.

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Dado como perdido, o iraniano Chess of the Wind reencontrou a luz do dia graças a Martin Scorsese e sua fundação de restauro de filmes clássicos esquecidos, a World Cinema Foundation, em parceria com a Cinemateca de Bolonna. O filme é uma das poucas ficções na carreira do documentarista e poeta iraniano Mohammad Reza Aslani. Originalmente, foi lançado em 1976, em Teerã, onde não foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo banido em seu país nos anos seguintes à Revolução Iraniana de 1979.
 
Reencontrar esse filme quase cinco décadas depois é a oportunidade de poder fazer a leitura que merece. Este é, acima de tudo, um melodrama, com momentos eventualmente beirando uma telenovela em sua exacerbação das emoções e sentimentos. Formalmente, ao mesmo tempo, é visualmente contido com a poderosa fotografia de Houshang Baharlou, assumidamente inspirada em Barry Lyndon, em tons frios e contrastes com um clima árido e o ar que parece sempre seco.
 
Não foram poucos os motivos que levaram ao banimento do longa no país – entre eles, personagens femininas fortes e independentes e homossexualidade, temas que desagravam ao regime do aiatolá Khomeini, além da forte influência europeia no filme. A crítica à sociedade do país na época também é proeminente, materializando-se nas disputas de poder dentro de uma mesma família após a morte da matriarca nobre que deixa uma boa herança.
 
A narrativa se passa nos anos de 1920, próximo ao fim da dinastia Cajar, que governou o país desde o século XVIII. O filme chegou aos cinemas quando a casa que a sucedeu, a Pahlavi, estava com seus dias contados. É claro que a trama fala do passado para abordar o presente, um Irã decadente sob o governo do xá Reza Pahlavi.
 
Boa parte da história se passa na mansão da família protagonista, e a construção, com sua arquitetura persa imponente e decadente, torna-se uma espécie de personagem em si. Mais do que o palco da ação, onde o colapso do clã que nela habita parece inevitável.
 
A figura que comanda a família é a lady Aghdas (Fakhri Khorvash), que vive numa cadeira de rodas de madeira, cercada de pessoas interessadas na fortuna que recebeu de sua mãe. Uma figura central é Hadji Amoo (Mohammad-Ali Keshavarz, um ícone do cinema iraniano, e que, anos mais tarde, protagonizaria Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami), o padrasto da herdeira. A outra é a empregada boazinha, interpretada pela estreante Shohreh Aghdashloo, outra grande figura do cinema iraniano que, poucos anos depois, faria O Relatório, também de Kiarostami.
 
As personagens estão num mundo que reflete a monarquia de seu país, estratificado e de difícil mobilidade social. Aghdas é cercada, especialmente, por homens interessados em seu dinheiro e o que isso pode lhes trazer de bom numa sociedade prestes a ruir. Aslani, que também assina o roteiro, constrói a narrativa num enquadramento de tragédia grega, com um coro, formado por lavadeiras que ficam na fonte em frente à mansão, fazendo comentários sobre a ação.
 
Chess of the Wind é um filme sobre o passado – que insiste em se repetir nas dinâmicas de poder que não são superadas – num país distante que, estranhamente, pode refletir o presente do século XXI. Visualmente impressionante, e cinematograficamente potente, é uma grande (re)descoberta para a cinefilia mundial.
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