Apesar de ser uma das escritoras brasileiras mais lidas e queridas, Clarice Lispector não é uma autora muito adaptada para o cinema. Isso possivelmente se explica pelo tipo de prosa que caracteriza sua obra, marcada pela interioridade das personagens. Ainda assim, diretoras como Suzana Amaral conseguiram extrair um belo filme de A Hora da Estrela, que ganhou diversos prêmios, inclusive melhor atriz no Festival de Berlim, para Marcélia Cartaxo.
O Livro dos Prazeres parte de Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, e atualiza a trama publicada em 1969 para o presente, mostrando que certas coisas – como a opressão feminina – mudaram muito pouco neste país nas últimas décadas. A protagonista é Lóri (Simone Spoladore), uma mulher de espírito livre em busca de si mesma.
Professora de ensino fundamental e morando sozinha, ela vive uma vida solitária, sem muitas alegrias e com relacionamentos passageiros. Dirigido por Marcela Lordy – que assina o roteiro com Josefina Trotta –, o filme se constrói na observação da vida dessa mulher que parece viver apenas por inércia.
O título da obra original, reduzido aqui, dá a dimensão concreta da trajetória de Lóri. Sua história é uma aprendizagem sobre si mesma, mas também sobre o mundo que a cerca, e como exercer com liberdade sua feminilidade e sexualidade numa sociedade marcada pelo machismo e o patriarcado.
A transformação vem através de um homem que serve como catalisador na vida da professora. Trata-se de Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia argentino, com quem ela cria um jogo de sedução e descobertas. Mas, não se engane, as descobertas e mudanças em Lóri não se dão por causa dele – não é um homem o responsável pelas transformações da protagonista, ele é, quando muito, o estopim.
Spoladore, uma grande atriz, capta com sagacidade e delicadeza as dimensões de uma personagem tão complexa, cuja vida interior precisa se materializar na tela. Seu olhar profundo é o que melhor ilustra a existência dessas águas conturbadas dentro de si. A câmera de Lordy é apaixonada pela dupla Lóri/Simone, e, realmente, é impossível não o ser.
Se na prosa Clarice é radical, o cinema que elabora de seu livro é menos transgressor, mas nem por isso perde sua potência. Num país no qual mulheres são sumariamente atacadas pelo governo e seu séquito, ver na tela uma personagem feminina tão livre, dona de si mesmo e de seus desejos – algo que já deveria ser mais do que comum, naturalizado – torna-se um gesto de rebeldia.
