Barry Levinson é um diretor com altos não muito altos (Rain Man, Avalon, Mera Coincidência), e baixos um tanto baixos (A revolta dos brinquedos, Assédio Sexual, Esfera), mas quando acerta é capaz de fazer um filme correto, tecnicamente competente e com boas atuações – o que é o caso deste A luta pela liberdade, que traz uma história que já se viu inúmeras vezes, em suas mais diferentes variações, mas que se sustenta, especialmente, pelo elenco afinado.
O roteiro, assinado por Justine Juel Gillmer, é baseado no livro de memórias de Alan Scott Haft, que sobreviveu ao campo de concentração participando de lutas de boxes, e assim migrou para os EUA, onde teve uma carreira como boxeador. Sua sobrevivência dependeu, no entanto, de vender sua alma: aceitou participar de lutas, entre prisioneiros, para deleite e aposta dos guardas e oficiais nazistas. O perdedor era executado ali mesmo no ringue.
O filme vai e volta no tempo, e mostra a vida em Auschwitz em preto e branco, e em Nova York, posteriormente, no tom saturado, na fotografia assinada por George Steel, onde Haft (Ben Foster), também conhecido com Harry, tenta refazer sua vida e uma carreira como boxeador. Mas há outras feridas do passado: ele perdeu o grande amor de sua vida, Leah (Dar Zuzovsky), que foi levada do campo onde estavam juntos. Ele não sabe se ela sobreviveu ou não, e passa boa parte do tempo consumido pela culpa de não a ter ajudado, e a esperança de a reencontrar. Por isso, tenta a todo custo, sair nos jornais de grande circulação, pois acredita que ao ver seu nome, se ela estiver nos EUA, irá o procurar.
Nos ringues, é apresentado como “o orgulho da Polônia, o sobrevivente de Auschwitz”, e o ponto alto de sua carreira foi lutar contra Rocky Marciano, mas, sagazmente, Levinson não faz disso o centro do filme, não é o clímax, é apenas mais um elemento na jornada de Harry em busca de Leah. Mas isso não acontece – nem quando o protagonista aceita contar sua história a um jornalista (Peter Sarsgaard) de caráter duvidoso, que promete que encontrará Leah, em troca da história real de Harry, que, quando essa vem à tona (incluindo seu acordo com os oficiais) o transforma em pária em sua comunidade.
Levinson está interessado nos dilemas morais de seu personagem, nas decisões que toma, nas coisas de que abre mão para sobreviver. E, a certa altura, quando a busca por Leah parece infrutífera, ele se casa com Miriam (Vicky Krieps), que também tem suas feridas do passado. O tempo passa, eles têm filhos, mas Harry ainda sofre com pesadelos do seu trauma. Não é fácil para um filme trazer a experiência de um sobrevivente de um campo de concentração – talvez nem possível seja, mas A luta pela liberdade retrata de maneira respeitosa e genuinamente emocionante a vida desse homem, e, como resultado, o diretor realiza seu melhor filme em muitos anos.
