Numa ilha, o chef Slovik recebe os 12 convidados de um refinado jantar, pago a preço de ouro. Estão ali executivos, um artista de Hollywood, uma crítica gastronômica e uma jovem, Margot, que substituiu de última hora a acompanhante de um jovem rico. À medida que a noite avança, estranhas rotinas dão conta de que o que acontece ali é um jogo mortal.
- Por Neusa Barbosa
- 28/11/2022
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Dirigido por Mark Mylod - da série Succession e vários episódios de Game of Thrones -, O Menu é humor negro no fio da navalha. Ou seria melhor dizer no fio da faca? Não demos spoilers.
O evento central do roteiro de Seth Reiss e Will Tracy é um jantar para poucos, ao custo de US$ 1.250 por pessoa, numa ilha privada, comandado por um chef altamente estrelado e temperamental, Julian Slovik (Ralph Fiennes).
São apenas 12 convidados, ricos de perfil variado: um decadente ator de Hollywood (John Leguizamo), um velho empresário (Reed Birney), uma exigente crítica gastronômica (Janet McTeer), jovens executivos aguerridos e uma intrusa, Margot (Anya Taylor-Joy), que nem deveria estar ali, mas veio com substituta de última hora da acompanhante de outro jovem novo rico, Tyler (Nicholas Hoult).
O clima de estranheza começa nos detalhes do evento - como o fato de que toda a equipe do chef mora na ilha e é conduzida por ritos de um rigor militar que, no final, parece se tratar menos de atender à satisfação dos clientes do que aos caprichos deste estranho chef.
Da maneira como no filme se constrói este ambiente - um trabalho primoroso da direção de arte de Lindsey Moran e dos cenários de Gretchen Gattuso -, materializa-se esta sátira extrema aos ditames da alta gastronomia e da crítica gastronômica, que se esvaziaria se não se aprofundasse, como faz, numa verdadeira autópsia da luta de classes, que desencadeia um feroz jogo de sobrevivência.
O tema relaciona o filme a outros, como O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway, mais do que a A Comilança, este um notável pacto de morte conduzido por Marco Ferreri. Mas também remete a outras produções recentes sobre este imenso vazio da classe rica, como The Square e Triângulo da Tristeza, de Ruben Östlund, expondo as vísceras dessa bolha exclusivista que se relaciona com as outras camadas da sociedade sempre colocando-as no papel de subalternas, mas cuja vaidade pode ser demolida pela atração a uma armadilha construída sobre seus próprios vícios - como um menu requintado a que poucos teriam acesso.
Algum reparo pode ser feito à consistência do personagem central do chef mas Fiennes é um ator afiado o bastante para manter o interesse, ainda que seu perfil pudesse ganhar com um pouco mais com uma certa dose de ambiguidade a que, talvez, o filme não aspira.
Afinal, a maior ambivalência fica mesmo por conta de Margot, a única não-rica, que entrou neste círculo por acaso e, por isso, talvez detenha as únicas armas eventualmente capazes de romper um jogo mortal, milimetricamente marcado e inapelavelmente sangrento. Isto se houver alguma saída. O Menu não é mesmo um filme para estômagos fracos.
