Skinamarink – Canção de Ninar é, possivelmente, A Bruxa de Blair do século XXI, da era do Tik Tok, da Geração Alpha. Não que o terror de Kyle Edward Ball compartilhe dos estratagemas do sucesso do gênero lançado em 1999, mas a ascensão rápida e os relatos exagerados de “o filme mais assustador de todos os tempos” colocam os dois mais ou menos em pé de igualdade, o que poderá frustrar muita gente – como o seu antecessor frustrou.
O longa nasce de um projeto do diretor de curtas de terror no Youtube, Bitesized Nightmares, algo como “pequenos pesadelos”, nos quais recria pesadelos contados por pessoas – especialmente aqueles que tinham quando crianças. Um dos filmes é exatamente Heck, com a história de uma criança que acorda no meio da noite e se vê sozinha em casa, descobrindo que as janelas e portas que dão para a rua sumiram.
Com pouco mais de 10 minutos, o curta já era longo demais, mas, sabe-se lá porque, Ball resolveu que deveria expandir o filme num longa de mais de 100 minutos. O filme foi exibido num festival, mas por conta de um erro, acabou sendo colocado na internet, tornando-se alvo de pirataria maciça, criando o burburinho que explica seu sucesso inesperado.
Formalmente, esse é um filme esperto. A fotografia de Jamie McRae, apesar de digital, imita uma granulação e um colorido típico de películas antigas – toda a vibe do filme remete aos anos de 1970. E quem espera sustos, sangue ou qualquer outra estratégia típica do gênero, vai se decepcionar. O longa é composto de planos filmados com a câmera, na maioria das vezes, pouco acima do chão – imitando um olhar subjetivo das crianças – e vozes dissonantes delas (Lucas Paul e Dali Rose Tetreault) e do pai (Ross Paul) mal são ouvidas, quase incompreensíveis.
Não há muito para onde Skinamarink ir para além dessas limitações – as crianças fechadas dentro de casa, assustadas e desesperadas a certa altura. Repleto de simbolismos e alegorias, o filme pode fazer a alegria de psicólogos e afins. Pode ser lido como um retrato do abuso infantil – crianças fechadas dentro de casa sob a responsabilidade de pais violentos ou pedófilos, sem ter como sair dali. Ao mesmo tempo, para essas crianças, acordar num casa sem esses adultos pode ser um grande alívio.
