O documentário Um para pra chamar de meu, de Kelly Cristina Spinelli, passa-se num universo bastante particular: o de bailes da terceira idade. Mas seu foco não é exatamente as danças, o que interessa é uma dinâmica muito particular que ocorre ali: mulheres e seus personal dancers, que são jovens contratados para dançar com elas. O filme foi ganhador do prêmio de Melhor Documentário no Festival de Gramado de 2022.
O ponto de partida do documentário é exatamente a mãe de Kelly, Eni Spinelli, que, ao ficar viúva, perdeu não apenas o marido, mas também o companheiro de dança. Ela acabou encontrando num personal dancer a solução para isso. Contrata-o por uma noite, e já não está sozinha no baile. A partir da descoberta da mãe, a diretora observa essa nova profissão e como ela transforma a vida das clientes.
Contando com depoimentos de diversas mulheres que contratam personal dancers, o filme faz uma investigação sobre essa relação. É uma relação de trabalho que Um par para pra chamar de meu nunca perde do horizonte. As contratantes geralmente são mulheres brancas de classe média para cima – afinal, esse é o público típico dos bailes da terceira idade –, e os contratados, jovens periféricos. É, em última instância, um privilégio de classe poder contratar um desses profissionais.
Mas, claro, não é uma relação exclusivamente mecânica e fria, como também mostra o filme. Kelly observa o ambiente com carinho e curiosidade, e também nos lembra como o Brasil é um país que se esquece dos mais velhos. Com o aumento da expectativa de vida e a evolução da medicina, as pessoas têm chegado saudáveis a idades cada vez mais avançadas, e o país e o mercado também (por que não?) ainda não pensam o suficiente nesse público.
