Retratos Fantasmas, de Kléber Mendonça Filho, é capaz de despertar muitas discussões em torno de memória, percursos pessoais, destruição implacável de paisagens urbanas e dos cinemas que pautaram as vidas de muitas pessoas, não só dos cineastas – no caso, focalizando a cidade natal de Kléber, Recife.
A referência a fantasmas no título é mais do que adequada para ilustrar a efemeridade dos percursos pessoais de cada pessoa, desde a transformação das casas, dos bairros, nessa permanente reconstrução urbana de tantas metrópoles como Recife, que passa, há décadas, por um violento processo de verticalização. Kléber Mendonça situa, dentro da cidade, o próprio apartamento onde cresceu, no bairro de Setúbal, e que foi muitas vezes o cenário de seus filmes, desde os curtas-metragens até os longas, entrando no todo ou em parte em O Som ao Redor, por exemplo.
Mais interessante ainda é a maneira como o cineasta pernambucano insere em sua narrativa pessoal a história dos cinemas de rua de sua cidade, como o São Luiz (única sala que ainda sobrevive hoje, graças ao poder público estadual), o Art Palácio, o Veneza, o Moderno e outros, alguns definitivamente fechados, outros transformando-se em igrejas evangélicas.
De uma maneira insólita, o diretor fecha seu filme com um segmento ficcional, em que ele próprio interpreta o passageiro de um uber, dirigido por um motorista (Rubens Santos), traduzindo uma situação que não dispensa um toque fantástico e um humor cínico. Não poderia terminar melhor.
