04/06/2026
Drama

A menina silenciosa

Cáit tem 9 anos e vive com sua família pobre na Irlanda no começo da década de 1980, quando ela vai morar com uma prima da mãe, que tem melhor condição econômica. A vida da garota se transforma, mas antigos segredos colocam tudo em risco.

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A menina silenciosa não é exatamente um filme de fantasmas, mas seu diretor, Colm Bairéad, se apropria da gramática do gênero para contar a história de uma garota de 9 anos e seus ritos de passagem precoce para um mundo adulto e desolado. Baseado numa novela da irlandesa Claire Kegan, o longa foi a primeira produção em irlandês indicada ao Oscar na categoria Melhor filme em língua estrangeira. 

O roteiro, assinado também pelo diretor, é construído sob a delicadeza do olhar infantil para um mundo que ainda não compreende, um mundo de laços e afetos que se esvai. Pouco se fala – o título faz muito sentido e justiça ao filme –, e a atmosfera é de ameaça de destruição. 

O momento é o começo dos anos de 1980. A pequena Cáit (Catherine Clinch) vive numa família um tanto disfuncional. Sua mãe (Kate Nic Chonaonaigh) está grávida novamente, e o pai (Michael Patric) é um alcóolatra que nunca trabalha no pequeno pedaço de terra da família.

Quando a garota é mandada para um lar temporário na casa da prima da mãe, tudo parece que vai mudar para ela. A casa de Eibhlín (Carrie Crowley) e Seán (Andrew Bennett) é oposta à dela, tudo é mais calmo, as palavras são praticamente sussurradas, e não há qualquer tipo de abuso. 

Eibhlín e Seán, no entanto, não tem filhos, e quando Cáit desaparece por alguns minutos, o homem fica desesperado. Quando ela reaparece, a prima diz a ela que “nessa casa não há segredos”. No momento em que essa frase é dita, sabemos que isso está longe de ser verdade. Se não há mesmo segredos ali, muito pouco é dito por aquelas pessoas. 

Embora nada seja dito no filme, não muito longe dali, conflitos históricos marcam a história da Irlanda do Norte. É um momento turbulento de violência, que se materializa na delicada história pessoal daquela menina em seus ritos de passagem. Bairéad faz um filme delicado, que se concentra em sua personagem e suas dolorosas descobertas sobre o mundo adulto – aquele no qual ela viverá também em breve. E o filme tem na estreante Clinch uma atriz na medida entre a curiosidade e a solidão para a personagem. 

A fotografia de Kate McCullough, aliada ao desenho de produção de Emma Lowney, cria um mundo do passado imerso em si mesmo. Aí entra também a língua irlandesa, um idioma ameaçado de extinção, que vem ao encontro da situação da protagonista de pouco falar. Não sabemos ao certo o motivo de seu silêncio, mas Bairéad constrói o filme de tal maneira que a razão pode ser qualquer uma. Num outro tipo de filme, haveria grandes momentos de exagero, de explicações, quando todas as pontas são amarradas. A menina silenciosa, ainda bem, não é desse tipo de filme. Seu diretor está interessado nos silêncios – que, no fundo, são mais reveladores do que qualquer gritaria.

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