04/06/2026
Comédia

A estrela cadente

Boris é o garçom do bar Estrela Cadente, um lugar quase sempre vazio. Mas um dia entra pela porta o enfurecido Georges, armado e tentando acertar o garçom. Ele falha e Tim, o segurança do bar, vem com uma solução: substituir Boris, que tem um passado obscuro com a justiça, por Dom, um pacífico dono de cachorro que é seu sósia. Nos cinemas.

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Dominique Abel e Fiona Gordon são uma dupla de atores, roteiristas e realizadores que se apóiam num teatro físico minimalista, que dispensa muitos diálogos, apostando num humor quase chapliniano ou busterkeatoniano, um pouco cinema mudo, um pouco clown - e ainda por cima com uma pitada de humor lacônico, à la Aki Kaurismaki.

Neste novo filme, realizado seis anos depois de Perdidos em Paris (2017), a dupla criou uma trama policial, com um toque político, em torno da confusão proporcionada pela existência de dois sósias, ambos interpretados por Abel. 

Em uma de suas existências, ele é Boris, o garçom de um bar que dá nome ao filme, quase sempre vazio. Mas um dia entra pela porta um suposto cliente muito enfurecido, Georges (Bruno Romy). De arma na mão, ele tenta matar Boris, que seria um ativista responsável por um atentado, muitos anos atrás, que afetou drasticamente a vida de Georges.

A tentativa de assassinato dá muito errado e Georges é obrigado a bater em retirada e não ileso. Para Boris e sua mulher, Kayoko (Kaori Ito), o incidente é a deixa para sumir de cena. A descoberta providencial de um sósia de Boris, Dom, por Tim (Philippe Martz), o segurança do bar, parece oferecer a solução perfeita - desde que Dom, é claro, tope assumir o lugar de Boris no balcão do bar, sem suspeitar do risco que isso lhe acarreta.

Uma outra dificuldade do plano é que Dom tem uma ex-mulher, Fiona (Fiona Gordon), uma detetive que começa a suspeitar das prolongadas ausências de Dom, deixando sua cachorrinha sozinha em casa, precisando dos cuidados do vizinho, Homer (Bruce Ellison).

Contando com essa trupe de personagens estranhos, envolvidos em jornadas que não raro atingem o absurdo, o filme caminha numa dramaturgia rarefeita, feita sob medida para destacar a natureza melancólica de todos eles. O toque político invade a cena através de manifestações de rua, que reativam o ativismo reprimido de Boris, neste momento reivindicando melhorias da assistência médica, em prol de profissionais da saúde e hospitais. Não deixa de ser um bom lembrete, nostálgico talvez, sobre a mudança ocorrida nas mobilizações de hoje e as de 35 anos atrás.

Um momento plasticamente marcante é uma sequência musical, em que se embaralham os personagens em conflito e também clientes do bar Estrela Cadente, enquanto o atirador mais uma vez tenta acertar seu alvo. Uma sequência que define o tipo de cinema da dupla Abel e Gordon - que não é para todos os gostos, mas tem seu engenho e delicadeza.

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