De tempos em tempos, o horror, esse gênero tão maltratado e banalizado, surge com uma ideia que, se não é completamente nova, ao menos injeta um novo fôlego, especialmente no campo das ideias. Entrevista com o demônio tem uma perspectiva até simples, mas eficiente. Um talk-show de fim de noite receberá, no Halloween, uma especialista em possessão diabólica e uma garota que ela supostamente curou.
Obviamente, por ser inserido no gênero, é até fácil imaginar o que vai acontecer. Mas essa não é, exatamente, a questão no filme escrito e dirigido pelos irmãos Cameron Cairnes e Colin Cairnes. O final dos anos de 1970, quando se passa trama, mais do que uma marcação temporal, é um personagem. Das características estéticas à direção de arte, tudo evoca, mais do que homenageia, esse momento.
E é nessa referência que Entrevista com o demônio ganha sua força. Os anos de 1970 são marcados por uma profunda desilusão com o fracasso das utopias e movimentos sociais do final da década anterior. Ao mesmo tempo, há a ascensão de um certo cinismo, que culminaria nos anos de 1980 e seu neoliberalismo. No filme, o programa apresentado por Jack Delroy (David Dastmalchian) está com os dias contados se não aumentar sua audiência. Fora isso, ele lida com a morte recente e prematura de sua mulher.
E a maneira mais fácil de aumentar com o público, como bem sabemos, é com sensacionalismo. É noite de Halloween de 1977, e ele promete a presença do demônio no palco, encarnado na jovem Lili (Ingrid Torelli). Disso, o filme resulta como uma espécie de filho de Rede de Intrigas com O Exorcista. Tudo começa pouco promissor no programa de televisão: um sujeito vestido de diabo na plateia, um ilusionista, até que chega a atração principal.
Lili está acompanhada da parapsicóloga June Ross-Mitchell (Laura Gordon), a mulher que a ajudou a se livrar do demônio que habitava a jovem, e também escreveu um livro sobre isso. O longa constrói esse momento sem pressa, diversas pistas falsas são dadas – uma delas envolve Gus McConnell (Rhys Auteri, excelente), o simpático músico da banda de palco do programa.
Dastmalchian, com seu cabelo engomado à la anos 70, domina o filme com um personagem histriônico e sem limites. O longa é dele e da jovem Torelli, também excelente no papel da menina que, novamente, será possuída pelo demônio, agora, ao vivo em rede nacional. O humor e o cinismo do filme – há um personagem cuja função é, exclusivamente, fazer comentários cínicos no palco do televisivo – mostram a sagacidade dos irmãos Cairnes em olhar para o passado, e, a partir de lá, comentar o presente.
