Primeiro longa da francesa Iris Kaltenbäck, Rapto anuncia a chegada de uma diretora sofisticada e atenta a detalhes, capaz na construção da narrativa e no desenvolvimento de personagens. Seu filme, que lhe rendeu uma indicação ao prêmio César de estreante, é marcado pela solidez em sua representação e investigação da maternidade.
A atriz Hafsia Herzi, também indicada ao César, faz a protagonista, Lydia, uma parteira que foi traída pelo namorado e agora, semanas depois, irá atuar no parto de sua melhor amiga, Salomé (Nina Meurisse). O procedimento não é fácil para as duas, mas tudo acaba bem, com o nascimento de uma menina saudável.
Quando sai para passear com a menina, para que os pais possam descansar um pouco, acaba encontrando Milos (Alexis Manenti), com quem teve um encontro furtivo, e diz a ele que a menina é filha deles dois. A partir disso, a vida dela passa a girar em torno dessa mentira, em sua tentativa de criar vínculos com o rapaz.
Rapto poderia ser um filme que vilaniza Lydia, mas ela é uma personagem complexa demais para ser colocada dessa forma. A interpretação de Herzi acrescenta camadas a essa mulher que, num ato impensado, se envolve numa teia de mentiras. E, mais do que apenas narrar essa bola de neve, Kaltenbäck, que assina o roteiro com Alexandre de La Baume e Naïla Guiguet, conta essa história pelos olhos de Milos, o que adiciona ainda mais mistério à protagonista.
O que interessa aqui, mais do que a trama, é como essa é apresentada, e Kaltenbäck mostra uma segurança que muitos veteranos não têm em ousar formalmente. O que não quer dizer que ela faça estripulias e pirotecnias visuais, pelo contrário. Sua segurança está exatamente em deixar que a narrativa flua – o que faz parecer que isso acontece por contra própria, mas, não se engane, é preciso de uma direção forte e centrada para que um filme pareça ser tão simples na superfície, mas trazendo toda sua complexidade nas camadas mais profundas.
