Como diria Ken, do filme da Barbie, sobre os protagonistas de Nosso verão daria um filme: o trabalho deles é praia. E cinema. No caso, uma praia de nudismo majoritariamente frequentada por gays no litoral da Grécia. O longa de Zacharias Mavroeidis aproveita seu belo cenário para contar uma história bem-humorada e leve mas, nem por isso, menos relevante sobre os amores (especialmente dos homens gays) no mundo contemporâneo.
O filme se vale da metalinguagem para discutir não apenas as regras de narrativa do cinema clássico, mas para falar sobre os relacionamentos humanos a partir do ponto de vista de Demosthenes (Yorgos Tsiantoulas), um ex-ator que, durante esse dia na praia, ajuda o amigo, Nikitas (Andreas Labropoulos), a escrever um roteiro a pedido de um produtor francês, que quer um filme “divertido, sexy, grego e de baixo orçamento.”
Essa seria a chance de Nikitas estrear como diretor, e mostrar à pequena cidade de onde saiu para fazer cinema, que ele é bem sucedido. O que começa com as regras mais básicas de roteiro: o esquema dos três atos, jornada do herói, etc, aos poucos se transforma numa investigação interessante sobre o passado de Demosthenes e o fim de seu relacionamento com Panos (Nikolaos Mihas).
A realidade do protagonista se confunde com a ficção que ele constrói com o amigo cineasta num filme que tem muito de suas experiências, mas também invenções narrativas. O centro se torna a relação com Carmen (uma personagem peculiar e inesperada, que revelar quem é seria um spoiler), uma nova amiga que surge na vida de Demosthenes por meio do ex-namorado.
Um filme grego situado na Grécia, o berço da narrativa, e que desconstrói a arte da narrativa em si é algo a se pensar. Mavroeidis, que assina o roteiro com Fondas Chalatsis, brinca exatamente com isso, e também com o cinema contemporâneo com referências a Xavier Dolan, como uma influência no filme de Nikitas, e Timothée Chalamet e Chris Hemsworth como possibilidades de elenco. “O ator de Thor ganharia um Oscar se fizesse o meu papel”, imagina Demosthenes.
É nessa chave de um humor leve, mas com interesse em questões pertinentes, como representação de sujeitos e corpos queer, que Nosso verão daria um filme conquista. Mavroeidis sabe dosar humor, sensualidade e seriedade, provando que uma obra relevante não precisar ser panfletária – pelo contrário –, e que é possível lidar com temas sérios sem ser sisudo.
