04/06/2026
Drama

Tudo o que você podia ser

Aisha, Bramma, Will e Igui são quatro amigas não-binárias moradoras de Belo Horizonte. Elas formam uma fraternidade bastante unida e agora se preparam para a partida iminente de Aisha, que vai cursar Ciências Sociais em S. Paulo. Elas aproveitam os últimos dias da amiga para seus rolês pela cidade e muitas conversas.

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O título remete à famosa canção dos irmãos Márcio e Lô Borges, um clássico do Clube da Esquina dos anos 1970 - que até toca no filme de Ricardo Alves Jr. e assume aqui uma repaginada, dentro de um relato que enfatiza a normalização de quatro personagens não-binárias, no cotidiano em Belo Horizonte, dentro de um círculo que as protege, com seu afeto, de agressões do mundo ali fora.

Trata-se de um filme híbrido mas, mesmo não sendo um documentário estrito senso, vale-se de experiências vividas por suas quatro protagonistas - Aisha Brunno, Bramma Bremmer, Will Soares e Igui Leal - para compor o tecido das situações vividas por elas. O eixo disparador é a iminente partida de Aisha de BH para São Paulo, onde vai cursar Ciências Sociais. 

Para Aisha, este é um momento de despedidas, que começa com o irmão, a cunhada e o pequeno sobrinho, numa situação familiar que chama a atenção por sua harmonia, traduzindo uma assimilação completa da transexualidade de Aisha. 

Não há tragédias à vista ao longo do filme, ainda que não dispense situações de conflito ficcionalizadas -, envolvendo principalmente Bramma. Ela é vista numa sessão de terapia, em que enfrenta os dilemas de sua condição de HIV positiva; numa discussão áspera com a mãe (Docy Moreira), que não aceita sua nova persona sexual; e também num ônibus, onde sofre bullying de um grupo de rapazes. Nada muito drástico. É visível que o filme aspira a retratar mais o entrosamento entre o quarteto principal do que qualquer outra coisa, sem chegar a criar um universo à parte, como outro filme intensamente afetivo com personagens não-binárias como Inferninho, de Pedro Diógenes e Guto Parente. 

A despedida de Aisha inclui uma noitada com as amigas, como Igui, também preparando a partida dali a um ano para um doutoramento na Alemanha. Mas é em torno da performática Will que o filme extrai seus melhores momentos de humor. Com forte presença de cena, ela dispara as frases mais espirituosas, mostra suas múltiplas técnicas para se montar e exibe toda uma desinibição trazida de sua experiência de palco. 

Decididamente, as quatro formam uma fraternidade, que o filme constrói dentro de uma dinâmica ficcional que incorpora claramente as vivências delas, sem se ater às mais dolorosas, mas criando espaço para um discurso sobre o que é ser não-binária dentro da realidade brasileira - fugindo ao tom de drama ao não remeter à latente violência no País contra sua população LGBTQIA+. 

Se essa dinâmica tem fôlego para sustentar o interesse do público, é outra história. Depende muito do olhar de quem compartilha estas experiências, que em alguns momentos parecem fluidas, mas não deixam de criar sequências memoráveis: como a de Aisha projetando o corpo fora da janela do carro, numa noite, num quase vôo de liberdade. Se há uma coisa que este filme respira é liberdade.

 

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