Exibido na mostra Panorama, em Berlim, e no Cinélatino de Toulouse, vencendo prêmios de público e crítica, o segundo longa da diretora costarriquenha Antonella Sudasassi Furniss cria um dispositivo ficcional eficaz para ligar os relatos verídicos de oito mulheres maduras, falando com toda a franqueza de sua sexualidade, sentimentos e experiências e, não raro confrontos, com a estrutura patriarcal de sua sociedade.
A diversidade de vozes é mantida numa cuidadosa edição desses relatos, ao mesmo tempo que vemos na tela atrizes, especialmente uma, representando a mulher madura (Sol Carballo), em cujo corpo se enfeixam todas as experiências.
Esta sutil contraposição de vozes encontra sua coerência numa montagem atenta aos ritmos dos relatos, tornando esta mulher sem nome uma espécie de símbolo de todas as outras, sobre a qual se investem as memórias resgatadas, sem que ela deixe sua casa, que se transforma numa espécie de extensão de seu corpo.
Tanto como em seu primeiro longa, o extraordinário O Despertar das Formigas (2019), exibido no Festival de Gramado, o ponto de partida da diretora e roteirista é a sexualidade feminina. E a primeira constatação é que o desejo das mulheres ouvidas não se apagou, continuando a habitar a imaginação de todas elas, que não raro procuram novas experiências, sem negar a constatação de que seu corpo e suas expectativas mudaram com a idade. E, contra a média da opinião geral, estas experiências sensuais na idade madura muitas vezes são as melhores de suas vidas.
Isto ocorre também por conta da superação de abusos e situações traumáticas de violências doméstica vividas por algumas delas na infância e adolescência, assombrando-as com uma culpa da qual foi difícil se livrar - afinal, mesmo quando criavam coragem para denunciar os abusos, quase sempre eram responsabilizadas por tê-los, de algum modo, provocado, por suas roupas ou atitudes.
Criando uma dinâmica visual próxima do teatro, a diretora opta por planos-sequência que permitem que flua com mais facilidade a sua proposta de embaralhar tempos, mesclando passado e presente em ambientes paralelos. Isto permite à mulher madura olhar as experiências dramáticas dela quando criança (Juliana Filloy), jovem adulta (Paulina Bernini Viquez), e também diante do pai (Gabriel Araya) e da mãe (Liliana Biamonte) omissos ou repressores. Essa mescla de tempos permite que a narrativa encontre sua multiplicidade e transmita a complexidade de uma condição feminina que encontra eco em outros tempos e lugares. E isto enriquece o filme de uma densidade extraordinária.
O filme faz parte do Festivai de Filmes Incríveis, em SP.
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