03/06/2026
Drama

Mais pesado é o Céu

Antônio e Teresa se conhecem por acaso nas proximidades do açude do Castanhão, que cobriu com suas águas a cidade de Jaguaribara, aonde eles tinham ligações. Caindo na estrada, juntamente com um bebê encontrado por Teresa, eles procuram um novo caminho, defrontando-se com a exclusão, a violência e reafirmando sua vontade de lutar. Nos cinemas.

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Vencedor de quatro prêmios no Festival de Gramado 2023 - direção, fotografia, montagem e um troféu Especial do Júri para a atriz Ana Luiza Rios -, o novo filme de Petrus Cariry é um drama filmado no sertão cearense que tem ao centro uma família improvisada, formada pelos errantes Antônio (Matheus Nachtergaele), Teresa (Ana Luiza Rios) e um bebê. 

Perdidos na estrada, lutando contra a fome e o abandono, eles se tornam a metáfora de um país destroçado em que as esperanças de futuro encontram algum apoio e afeto em personagens que encontram pelo caminho, como Letícia (Dani Barbosa), funcionária de um posto de gasolina, e Fátima (Sílvia Buarque), dona de uma pequena pensão. 

Entre o exercício dessa paternidade/maternidade precárias, o resgate do humanismo e o brado contra a violência, o filme de Petrus encontra o seu cenário devastado no açude do Castanhão, que provocou o desaparecimento, debaixo d’água, da cidade de Jaguaribara, há mais de 30 anos - a cidade a que Antônio e Teresa procuravam voltar e que não mais existe. 

Dono de uma obra exigente, pontuada por longas ficcionais com a força expressiva de O grão, Mãe e filha, Clarisse - ou alguma coisa sobre nós dois e O barco, o diretor cearense reafirma a intenção autoral, não hesitando num final que certamente divide opiniões - e é apenas mais uma prova de sua coragem. 

Membro de um refinado clã artístico cearense, que inclui seu pai cineasta e roteirista, Rosemberg Cariry, e sua irmã cineasta, roteirista e produtora, Bárbara Cariry, Petrus afirma uma identidade própria neste que é seu quinto longa de ficção e em que ele se arrisca cada vez mais fora da margem, à procura de um alto-mar de expressão que se radicaliza e encontra mais e mais um sentido político.

Certamente, o país desolado em que se movem estes personagens tão miúdos e frágeis é um retrato nítido da nação brasileira destruída por desgovernos de tendência fascista, demolidores de políticas públicas e de um caminho de inclusão social ainda inconcluso. Por isso, o desespero que move Antônio e Teresa é tão palpável e de imediata comunicação. Pode-se facilmente sentir empatia por eles, assim como pelas vítimas do sistema desigual que insiste em se eternizar no País desde as capitanias hereditárias. A herança deste par, que não é bem um casal mas compartilha uma rústica solidariedade mútua, é a desproteção, a falta de acesso e uma teimosa vontade de sobreviver, de riscar no mundo hostil uma possibilidade.

Em destaque ainda dentro do enredo a permanência do machismo, da violência contra as mulheres que endurece a figura de Teresa ao máximo, tornando seu rosto um mapa de vivências difíceis, algumas intoleráveis. Por isso, o filme sacode tanto as consciências e não deseja deixar ninguém confortável em sua cadeira. É uma obra de espanto e incômodo, que pretende gravar suas marcas em cada um que a assistir, de uma forma ou de outra.

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