Indicado ao Oscar de roteiro, o filme do diretor suíço Tim Fehlbaum recria e apura, com notável tensão, os acontecimentos fatídicos que abalaram os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique - ou seja, o sequestro de 11 atletas israelenses pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro, que se transformou numa tragédia acompanhada ao vivo pela televisão no mundo todo.
Não é preciso ser jornalista para sentir a adrenalina que eletriza a redação da emissora ABC, retratada no filme. Mas quem é jornalista pode sentir ainda mais o drama da equipe esportiva da emissora norte-americana que, de um instante para outro, teve que mudar drasticamente o ângulo de sua cobertura, assumindo os riscos de uma transmissão ao vivo de acontecimentos absolutamente imprevisíveis. E isto há 50 anos, sem dispor dos meios digitais modernos - a transmissão era via satélite, com horários divididos entre as emissoras, todo mundo usando câmeras enormes, filmes que precisavam ser revelados, editados e suas latas trocadas no meio do turbilhão. Sem esquecer que as comunicações mais rápidas eram feitas por walkie talkies auxiliando os telefones fixos, porque celulares não havia.
Decisões rápidas tinham que ser tomadas a cada minuto e essa era a neurose que agitava a equipe esportiva da ABC, chefiada por Roone Arledge (Peter Sarsgaard), que despacha para a frente dos acontecimentos o experiente produtor Marvin Bader (Ben Chaplin), deixando no posto de editor um jornalista inexperiente na chefia, Geoffrey Mason (John Magaro), que imediatamente tem seu teste de fogo.
Reconhecendo na situação a grande chance de sua vida, Arledge disputa o comando da operação, negando-se a passá-lo para o núcleo de notícias que, nos EUA, queria assumi-lo, fazendo valer o argumento de estar posicionado no centro nevrálgico da situação.
Por outro lado, dilemas éticos surgem rapidamente no caminho de Mason, que pergunta se as câmeras poderão mostrar alguém sendo baleado ao vivo, o que é uma hipótese mais do que provável com oito terroristas armados mantendo os reféns no alojamento dos atletas. Muito pior é quando o editor descobre que as imagens de suas câmeras, que mostram inclusive os movimentos dos policiais nos telhados para aproximar-se do alojamento, estão sendo observadas também pelos terroristas em suas tevês. Mason percebe, da pior forma, que não estão somente acompanhando os fatos mas também influenciando seu rumo, colocando em risco a vida dos reféns. A empolgação pelo sucesso da transmissão, que deu uma vantagem inédita à ABC, transforma-se rapidamente em angústia. E assim o filme expõe, em carne viva, um dos mais cruciais dilemas do jornalismo. Eles estão fazendo história nas transmissões ao vivo, mas isso tem um preço.
Por mais que se conheça os desdobramentos reais do episódio, que é também retratado com inserções de imagens reais da época, Fehlman consegue imprimir ao seu filme um ritmo de thriller, com uma temperatura sempre em ponto de ebulição. Ele é particularmente feliz na maneira como retrata estes seus jornalistas de maneira des-heroicizada, na pulsação do momento, fazendo o melhor possível mas não podendo prever todas as consequências.
Uma rara personagem feminina neste universo é ficcional. Trata-se de Marianne Gebhardt (Leonie Benesch), a tradutora alemã da redação, cujo trabalho para decifrar as mensagens captadas dos rádios da polícia alemã torna-se essencial para ditar os próximos passos da cobertura. Ótima atriz, vista em Sala dos Professores e A Fita Branca, Leonie também simboliza, neste contexto, a culpa do povo alemão que, naquele momento, falhou novamente aos judeus, com o preparo deficiente e as decisões desastrosas tomadas pela polícia alemã.
Indo mais longe, o filme torna-se também uma ótima oportunidade de refletir sobre a criação de uma audiência cada vez mais faminta pelo consumo da dor alheia, através da cobertura imediata de conflitos, guerras, hecatombes e desastres naturais. E aí reside a discussão ética mais profunda que o filme é capaz de lançar, sem arvorar-se em juiz moral. Uma contribuição nada desprezível para um tema que já frequentou outros filmes, como o documentário Um Dia em Setembro, de Kevin McDonald (Oscar da modalidade em 2000) e Munique, de Steven Spielberg, que se dedica ao day after da tragédia.
