Há exatos 30 anos atrás, David Fincher deu ao mundo sua primeira obra-prima. Seven: Os sete crimes capitais foi o primeiro longa em que o cineasta realmente pode mostrar seu lado autoral. Vindo da publicidade e videoclipes, ele estreou em longas com Alien 3, que não foi exatamente um filme no qual pudesse mostrar suas credenciais enquanto cineasta - não só fazia parte de uma franquia, como o estúdio, a Fox Filmes, tinha os direitos sobre o corte final. Assim, por mais que o cineasta tenha brigado, o que chegou ao cinema não é sua visão do longa.
Seven (ou na grafia alternativa Se7en) quase não existiu também. Ao menos pelas mãos de Fincher, que tinha desistido de fazer cinema depois da péssima experiência anterior. Até que chegou a ele o roteiro do desconhecido Andrew Kevin Walker:,um suspense que, em muito, devia a O silêncio dos inocentes, mas que também era algo único em sua perversidade e olhar sobre a banalidade do mal. O resto, como se diz, é história – embora, como bem se sabe, Fincher, novamente, teve de lutar pelo final icônico do filme, mas dessa vez tinha ao seu lado Brad Pitt e Morgan Freeman, que se recusariam a fazer o longa se o final fosse mudado.
E o acerto foi do trio, mais do que dos produtores, que queriam algo mais convencional e heroico. Certamente, a caixa macabra do final do longa é uma das imagens mais fortes do cinema dos anos de 1990. Nada é mostrado explicitamente, mas o poder de sugestão é tão grande que muita gente jura ter visto o que está dentro. Mas isso é só um detalhe. Seven é um suspense competente, que mantém a tensão o tempo todo, o que faz o final impactar ainda com mais força.
Freeman é o detetive de polícia Somerset, prestes a se aposentar, quando recebe um jovem que acaba de mudar de cidade, Mills (Pitt), com sua mulher (Gwyneth Paltrow). Logo de cara, se deparam com um crime pouco comum: um homem obeso que morreu de tanto comer. Depois, um advogado é brutalmente assassinado em seu escritório, e a palavra Cobiça, pintada no chão com seu sangue.
Não custa muito – afinal o título nacional já entrega – percebemos que se trata de um assassino em série que mata conforme os pecados capitais. As cenas que seguem são impressionantes, como um homem que ficou um ano definhando numa cama (preguiça) e uma prostituta assassinada cruelmente (luxúria), entre outros. Mas mais do que saber como o matador agiu ou suas motivações, o objetivo da dupla é impedir um próximo crime.
O filme não deixa de lado alguns procedimentos típicos do gênero, como os dois detetives que, a princípio se estranham, mas se complementam, e longas conversas sobre hipóteses sobre o assassino. Mas, nas mãos de Fincher, isso é absolute cinema. A fotografia prateada (resultado de um processo especial de revelação da película) assinada por Darius Khondji, transmite ainda mais claustrofobia a um filme que parece se passar o tempo todo em lugares fechados, até que chega o seu clímax, a céu aberto num lugar que semelhante a um deserto com torres de energia.
Nesses anos todos, Seven entrou para a história do cinema, foi copiado à exaustão, imitado e se tornou uma fonte de eternos pastiches do gênero. Mas Fincher se sedimentou como um dos grandes da sua geração e ainda fez filmes como Clube da Luta, Garota Exemplar e O Assassino – um filme que ainda não recebeu toda a atenção que merece.
