04/06/2026
Drama Histórico

A batalha da Rua Maria Antônia

Aluna de filosofia da USP, Lilian é uma jovem considerada alienada pelos seus colegas, por evitar tomar atitudes contra a ditadura. Mas tudo muda, num dia em outubro de 1968, quando seus colegas uspianos entram em confronto com alunos do Mackenzie.

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Um fetiche que acomete cineastas nos mais diversos momentos de suas carreiras, o plano-sequência, quando se torna o fator determinante da forma e sequestra todo o filme. No premiado A Batalha da Rua Maria Antônia, essa é a regra. Ainda no começo do longa, uma professora diz que os alunos não conseguem se concentrar na aula por causa do momento político; no filme, por sua vez, talvez seja difícil se concentrar por conta de suas estripulias formais. O plano-sequência deveria imprimir o sentido de urgência, mas aqui rebaixa o historicismo para uma narrativa repleta de diálogos expositivos que a todo momento tenta fazer a ponte com o presente. 

Escrito e dirigido por Vera Egito, o longa é por 21 planos-sequências numerados (para que ninguém tenha dúvida de que são muitos mesmo). Assim, sacrifica-se a organicidade em prol de algo que parece milimetricamente planejado para poder permitir o movimento da câmera desejado. E como essa câmera se move: vai pra lá e pra cá, sobe e desce, faz curvas e retas, obriga que atores e atrizes deem passagem a ela. Isso força artificialismos nas atuações e diálogos. Os personagens são mais tipos do que seres humanos – os alunos do Mackenzie parecem saídos de uma boyband com seus terninhos iguais. Já o outro lado é como se saísse de um ensaio da Vogue, cheios de atitude e figurino hipster. 

Ao centro de tudo está Lilian (Pâmela Germano), no primeiro ano da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo da USP (hoje conhecida como FFLCH, e localizada no campus do Butantã), que ficava na Rua Maria Antônia, na Vila Buarque próximo ao centro de São Paulo. Ela é, como dizem seus colegas, alienada. A ação se passa em um único dia em outubro de 1968, ou seja, pouco antes do decreto do AI-5. Em frente à faculdade, ficava (ainda fica) o prédio de outra instituição, o Mackenzie. 

Nesse dia, estão acontecendo eleições para um Congresso da UNE, e a urna está sendo levada de faculdade em faculdade. Quando chega a vez do Mackenzie, há a ameaça de que será aberta, os votos destruídos, ou seja, o fim do processo democrático. Os alunos da USP, liderados por Benjamin (Caio Horowicz), tentam impedir que isso aconteça, e as provocações verbais logo se tornam uma luta violenta quando a USP é atingida por um molotov. 

Como se sabe, o episódio é bem mais complexo do que aparenta. O Mackenzie foi, de certa forma, usado por sua localização, em frente à Faculdade da USP, e tendo em seu corpo discente “alunos” membros do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC - este, por sua vez, fundado, na verdade, dentro da Faculdade de Direito da USP, mais conhecida como Sanfran, em referência à sua localização no Largo de São Francisco, no centro da cidade. Nuances como essa são engolidas por uma dicotomia mais simplificadora, como o preto-e-branco da fotografia do filme, que parece querer esmaecer a qualquer momento. 

Ao acompanhar a trajetória de Lilian, da alienação ao seu despertar político, o longa coloca em cena outras figuras cuja dimensão humana é um tanto abandonada em favor de as transformar em tipos para seguir propósitos explicativos. Daí surge a professora preocupada com seus alunos e com a revolução – numa interpretação delicada de Gabriela Carneiro da Cunha –, seu marido informante da polícia (Lourinelson Vladmir), um professor militante (Philipp Lavra), e outros alunos e alunas com empenho político. 

Dos 21 planos-sequência, alguns nem precisam estar ali, pois não somam à narrativa, nem à transformação da protagonista, são meras estripulias formais que parecem existir apenas para provar que é possível serem feitos. Há outras pirotecnias que nunca se justificam, mas é inegável que a última cena é um grande feito formal e narrativo, que ressoa no presente. 

 

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