04/06/2026
Drama

A Praia do Fim do Mundo

Helena, doente e idosa, se recusa a deixar sua pequena casa numa praia onde a água avança cada vez mais. Sua filha Alice é uma jovem ambientalista e tenta a convencer a mãe a se mudar. Desse embate, nasce a transformação em suas vidas. Nos cinemas.

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O apocalipse poético e dilacerante de A Praia do Fim do Mundo é filmado pelo diretor e diretor de fotografia Petrus Cariry de forma marcante na fotografia em preto e branco. Não haveria forma mais acertada para esse filme do que os tons de cinza que traduzem em imagens a degradação de um mundo e de figuras humanas que o habitam. 

Petrus, que também assina o roteiro e a montagem com Firmino Holanda, é um cineasta de delicadezas. Sua filmografia é composta desses retratos muito marcados pelo humanismo e pela busca do que há de mais humano em suas personagens que, nos mais variados graus, vivem no limite. Do colorido vibrante de O Barco e Mais Pesado É O Céu aos tons contidos aqui, no centro de seus filmes está o interesse pela matéria humana que se sobressai e tenta sobreviver num mundo degradado.

Essa dinâmica é ainda mais forte neste filme, numa narrativa que tem como cenário uma praia que avança na orla destruindo casas e consumindo histórias de vidas das pessoas que tiveram de abandonar o local. Helena (Marcélia Cartaxo) é uma mulher que resiste. Tal qual Clara (Sonia Braga), em Aquarius, ela não quer abandonar sua casa, mas suas razões não são tão claras como as da personagem do filme de Kléber Mendonça Filho.

Helena, adoentada e sendo consumida pelo tempo (a atriz usa uma poderosa maquiagem que a envelhece uns bons anos), parece não olhar para o futuro. Sua filha, Alice (Fátima Macedo), é uma jovem ambientalista que se descobre grávida, e sem saber o que fazer. O filme transcorre nessa dialética entre o fim do mundo e o começo de uma nova vida. 

Com um trabalho de som impressionante, o longa se apoia em fantasmagorias, em toques de realismo fantástico que causam estranhamentos brechtianos, e nos lembram que estamos diante do cinema com sua profunda capacidade estética e de discussão. A Praia do Fim do Mundo não é um filme bonito apenas esteticamente, mas encontra em sua forma uma resistência à degradação de um planeta consumido por um anunciado desastre ambiental. 

Em seu posicionamento que olha o passado, Helena resiste aos avanços tecnológicos e do dinheiro que gentrifica praias. Aqui, a praia onde ela mora se vinga da exploração capitalista avançando para além de seus limites. Não há resoluções simples para esses dilemas e aqueles outros enfrentados pelas personagens. O filme é muito ciente disso e sagaz ao levantar questionamentos sobre o mundo em que vivemos sem, ingenuamente, tentar fornecer respostas. 

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