A história de Cinderela ganha novos ares para os tempos contemporâneos trazendo o body horror ao clássico sob o roteiro e direção da norueguesa Emilie Blichfeldt, cujo filme tem sido associado ao festejado A Substância – um filme que, claramente, é mais sofisticado e relevante, mas aqui não deixa de haver questões importantes e certa diversão.
Rebekka (Ane Dahl Torp) é uma viúva que se casa em segundas núpcias com um viúvo em algum lugar da Europa Central no século XIX. Não custa muito, e ela enviúva novamente, e, além das duas filhas, Elvira (Lea Myren) e Alma (Flo Fagerli), fica também com uma enteada, Agnes (Thea Sofie Loch Naess), muito mais bonita do que suas filhas.
Com muito esforço e transformações corpóreas, Elvira tenta ficar bela para chamar a atenção do príncipe Julian (Isac Calmroth), que, em breve, escolherá uma noiva. Todo o dinheiro que resta à família é gasto na transformação de Elvira, e não sobra nem para o funeral do falecido marido.
É interessante como o longa discute o que é beleza e o preço para a atingir – não apenas em questão de dinheiro, mas, em especial, o gasto físico, emocional e moral que dispendido em nome de se tornar bela. E o que é ser bela, uma vez que este conceito é uma construção social e histórica?
Em seu primeiro longa, Blichfeldt mostra uma capacidade visual muito potente na criação de imagens marcantes e a combinação do poético com o decadente. O caminho, no entanto, ainda é preciso ser trilhado. Talento ela tem, mas ainda faltou o lapidar convergir todos os fios que cria ao longo da narrativa.
