Uma das características da pós-modernidade, segundo o teórico estadunidense Fredric Jameson, é o enfraquecimento da historicidade. Essa versão experimental de Ulisses, assinada por Cristiano Burlan, transporta o famoso personagem clássico grego para a São Paulo do presente. Não são apenas lugares e tempos diferentes, são modos de vidas diferentes, modos de produção completamente transformados e, a partir disso, o longa investiga, a seu modo, o que ainda pode haver do clássico no homem contemporâneo.
A jornada de Ulisses (Rodrigo Sanches) é marcada pela fragmentação, outra características da pós-modernidade, por uma cidade feita de destroços da modernidade. A fotografia em preto e branco de Helder Martins transmite uma sensação de impossibilidade de se localizar no tempo, enquanto a metalinguagem do longa acrescenta um estranhamento brechtiano, que compõe, novamente, o Ulisses do nosso tempo.
Penélope, por sua vez, é dividida em quatro facetas, interpretadas por Ana Carolina Marinho, Lorena Lobato, Luana Frez e Rebecca Leão, o que nos leva a perguntar quem é essa mulher cindida que vagueia por uma cidade – ou faz monólogos – marcada pelo abismo social. Jean-Claude Bernardet, por exemplo, interpreta um homem em situação de rua.
Por suas características experimentais, o Ulisses de Burlan é desafiador em sua medida de transpor o clássico para o mundo do capitalismo tardio. O filme é, obviamente, estranho em si e em suas autorreferências. É uma observação sobre onde chegamos a partir do longo poema de Homero. O concreto urbano substitui a paisagem natural, os carros, a embarcação, mas a busca por um lugar para se chamar de casa ainda permanece.
