01/09/2026
Documentário

A Queda do Céu

A convite do líder yanomami Davi Kopenawa, os cineastas Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha chegam à comunidade Watoriki, onde se preparam os rituais de despedida do sogro de Kopenawa, um antigo xamã. O filme mostra os preparativos e o cotidiano desse povo, lutando contra ameaças de garimpeiros e outros invasores. Nos cinemas.

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Davi Kopenawa em pessoa prestigiou em Cannes 2024 a première mundial de A Queda do Céu, o documentário de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha inspirado no livro homônimo do líder yanomami e do antropólogo franco-marroquino Bruce Albert, também presente àquela sessão, na Quinzena dos Realizadores. 

Foi o próprio Kopenawa quem convidou os diretores a filmarem em sua comunidade Watoriki, retratando uma cerimônia em homenagem ao xamã e sogro falecido do líder, cuja preparação e ritos são um mergulho no modo de vida dos indígenas - constantemente ameaçados por invasões de garimpeiros, trazendo desmatamento, doenças e toda sorte de violências, mas mantendo, apesar disso, uma sólida integridade em sua vida comunitária.

Fiel ao seu agudo olhar de documentarista, Eryk mantém o filme no ritmo e na sintonia dos seus personagens, que vivem o tempo de uma forma muito distinta dos brancos. Os indígenas parecem viver suas vidas muito naturalmente diante das câmeras, incorporando os forasteiros da equipe como parte de seu cotidiano - eventualmente rindo deles enquanto são observados em suas atividades, além de manter conversas muito importantes, como é o caso de um velho yanomami que, num sentido desabafo, sintetiza a ambiguidade das relações com os nape, ou seja, os brancos. O homem velho é, como todos os indígenas, um sobrevivente a uma série de contatos desastrosos, incluindo missionários que exploraram seu trabalho, e a doenças trazidas pelos brancos que tiveram efeitos devastadores na comunidade.

Olhando estas imagens, é impossível deixar de perceber a força dos laços comunitários que unem esta nação e como suas preocupações se manifestam e transmitem entre as gerações. Uma fala de Kopenawa alerta os jovens de que ele próprio já se sentiu, no passado, fascinado pelo modo de vida dos brancos, adotando seus cortes de cabelo e outras características, até perceber o que os distinguia e a importância na manutenção de sua própria identidade. Este fascínio por um mundo exterior recheado de símbolos de consumo atraentes é também um dos perigos cercando estes jovens, alguns dos quais são atraídos ao trabalho nos garimpos, a atividade econômica mais ameaçadora aos territórios indígenas, inclusive em termos ambientais.

Comunicando-se, de aldeia em aldeia, por meio de rádios, que tanto anunciam a chegada de garimpeiros como o nascimento de mais um bebê, percebe-se como se organizam os grupos dentro da comunidade, trocando informações, conselhos, coesão. Tudo se consolida  com a chegada dos grupos vizinhos para a cerimônia de despedida do xamã e sogro de Kopenawa, cujos objetos, as bananeiras que plantou e seu próprio corpo serão queimados para que lhe seja dado o adeus.

A sabedoria dos xamãs, condição do próprio Kopenawa e outros, é também um elemento indissociável para compreensão da cultura yanomami e que está no centro de sua relação com a natureza, da qual emergem tanto sua cosmologia como sua noção de equilíbrio ambiental. Os xapiri (espíritos, na cultura yanomami), acreditam eles, falam com os seres humanos através dos sonhos, que são também uma forma de conhecimento. 

Falando numa conversa depois da sessão em Cannes, Eryk Rocha destacou que seu filme, que começou a ser planejado em 2017, na verdade, é uma “inadaptação” do livro de Kopenawa e Albert, que enfatiza os riscos da destruição da natureza sob o prisma da cosmologia indígena.  “É mais uma inspiração, um diálogo com aspectos do livro, que pode ter muitas outras leituras”, afirmou. Segundo o cineasta, sua preocupação foi fixar-se em três aspectos: “Diagnóstico, alerta e convite para mergulhar nesse outro mundo, dos xapiri, não meramente ficar na constatação do fim do mundo e expor a potência desse pensamento deles, que é geopolítico”.

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