22/07/2026

Duas alternativas brasileiras para o mundo

Cannes - Duas figuras que representam o que de mais original e melhor o Brasil tem a oferecer ao mundo estiveram na programação do festival neste domingo (19) - o líder yanomami Davi Kopenawa, figura central do documentário A Queda do Céu, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, parte da Quinzena dos Realizadores, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o tema de outro documentário, Lula, de Oliver Stone e Rob Wilson, em exibição especial.
Realizado poucos meses antes das eleições de 2022, Lula traça um perfil generoso do presidente brasileiro, situando suas origens pobres, sua ascensão no meio sindical e passando por suas atribulações com o lawfare da Lava-Jato, a prisão e a iminente volta por cima num terceiro mandato. Conta com farto material de arquivo e também com entrevistas, com o presidente, seus advogados, Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Zanin, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald e o hacker Walter Delgatti Neto, compondo um quadro evidentemente voltado a um público internacional, detalhando parte da trajetória do mandatário brasileiro - que Stone destaca como uma figura de expressão no mundo, enfatizando seu comprometimento com a democracia numa época de ascensão de líderes autoritários, quando não francamente fascistas.

Com seu habitual faro para conspirações, Stone volta o foco para o papel dos EUA dentro da história de Lula e do PT, destacando a participação de órgãos do governo norte-americano no desenvolvimento da Lava-Jato, a espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional) contra a presidenta Dilma Rousseff, décadas depois de ter apoiado diretamente a implantação da ditadura militar de 1964 no País. O cineasta é, sabidamente, um homem progressista, de tendência esquerdista, mas nunca se afasta do compromisso de fazer mais um documentário expondo os meandros da liderança política - o que ele demonstrou em outros documentários sobre líderes diversos, de Hugo Chávez a Vladimir Putin.

Para o público brasileiro, não há grandes novidades em Lula - exceto talvez a franqueza com que o presidente brasileiro expõe críticas a Barack Obama e ao Partido Democrata, manifestando que a relação do Brasil com os EUA teria sido melhor e mais franca sob o governo do republicano
George W. Bush. São declarações, aliás, que se encaixam perfeitamente na intenção evidente do documentário de apresentar Lula como um dos líderes que faz a diferença num mundo em que a democracia, inclusive nos EUA, sofre ameaças inacreditáveis.

Povo da floresta

Davi Kopenawa em pessoa veio prestigiar a apresentação de
A Queda do Céu, o filme de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha que se inspira na obra homônima de Kopenawa e do antropólogo franco-marroquino Bruce Albert, também presente à sessão.
Foi o próprio líder yanomami quem convidou os diretores a filmarem em sua comunidade Watoriki, retratando uma cerimônia em homenagem ao sogro falecido de Kopenawa, cuja preparação e ritos são um mergulho no modo de vida dos indígenas - constantemente ameaçado por invasões de garimpeiros, trazendo desmatamento, doenças e toda sorte de violências.
Falando numa conversa depois da sessão, Eryk Rocha destacou que seu filme, que começou a ser planejado em 2017, na verdade, é uma “inadaptação” do livro de Kopenawa e Albert, que enfatiza os riscos da destruição da natureza sob o prisma da cosmologia indígena.
“É mais uma inspiração, um diálogo com aspectos do livro, que pode ter muitas outras leituras”, afirmou. Segundo o cineasta, sua preocupação foi fixar-se em três aspectos: “Diagnóstico, alerta e convite para mergulhar nesse outro mundo, dos xapiri (espíritos, na cultura yanomami), não meramente ficar na simples constatação do fim do mundo e expor a potência desse pensamento deles, que é geopolítico”.
Muito aplaudido, Davi Kopenawa, que via o filme pela primeira vez, elogiou a obra - realizada em sintonia com a comunidade tradicional - e afirmou: “Não fizemos essa mensagem para assustar vocês. (O fim do mundo) não vai acontecer amanhã. O filme foi feito para vocês gostarem, olharem e pensarem. Até eu, que sou xamã, me assusto com a destruição da floresta amazônica, com os invasores. Isso não pode continuar. A luta dos povos indígenas vai continuar”.