O foco na feminilidade, com uma expressão que abarca vários temas, enriquece Eclipse, o segundo longa dirigido pela atriz Djin Sganzerla. Como em sua estreia na direção, Mulher Oceano (2020), ela novamente se une a Vana Medeiros para a escrita do roteiro, explorando os muitos dilemas que se abrem à frente da protagonista Cléo, uma astrônoma grávida, interpretada por ela mesma.
A profissão inusitada já abre uma porta para sugestões que enredam também o título do filme, que incorpora alusões à cultura ancestral indígena, em mito que envolve a onça pintada que faz diversas aparições simbólicas ao longo do filme.
A onça remete também a Nalu (Lian Gaia), a meia-irmã indígena que Cléo descobriu há pouco, como um aspecto insuspeitado da vida do pai das duas. Tanto na tez quanto no temperamento, as duas simbolizam também as diferenças entre o sol e a lua que têm a ver com o eclipse - um encontro entre os dois astros promovido pela onça inconformada com sua separação, segundo uma mitologia indígena relatada por Nalu.
Que o enredo não se limite em expor as notórias diferenças da vida das duas irmãs, Cléo tendo desfrutado de todas as vantagens de uma família oficial, Nalu relegada às sombras e também vítima de um abuso, é mais uma qualidade deste filme, que procura a complexidade de um caleidoscópio, não se contentando com maniqueísmos simples.
Que o filme adentre também uma atmosfera de suspense a partir das suspeitas de Cléo do próprio marido, o advogado Tony (Sérgio Guizé), em torno de uma suposta relação dele com o mundo sombrio da deep web mostra-se bastante ousado e enriquecedor. Neste trecho, a experiência diferente de Nalu na vida terá seu valor - e é bom que não se esclareça tanto se esta personagem é ou não tão ambígua quanto parece ser. No fundo, o que se obtém nestas escolhas do filme é criar um espelho também das diferenças sociais da sociedade brasileira a partir destas duas irmãs, que a tanto custo procuram uma forma de diálogo e troca.
Mais positivo mesmo é que, mesmo tratando de violências contra as mulheres, a opção seja não reforçar a vitimização e sim a reação e a autodefesa. Contando com uma qualidade técnica em que sobressai a direção de arte e figurino de João Marques de Almeida, a fotografia de André Guerreiro Lopes, a montagem de Karen Akerman e Karen Black, a música de Gregory Slivar, Eclipse manifesta também uma coragem que era muito comum nos realizadores dos anos 1960, no sentido de arriscar, buscar ir mais longe, lançar mais fios sobre a complexidade do mundo. Dessa tradição, Djin, que está encontrando sua voz como diretora, é uma legítima herdeira. Eu não esperaria outra coisa da filha de Helena Ignez que, aliás, faz uma brevíssima ponta, assim como veteranos de classe, como Selma Egrei, Luís Melo, Clarisse Abujamra e Gilda Nomacce.
