19/07/2026
Comédia dramática

Era uma Vez Minha Mãe

Roland Perez é o sexto filho de uma família de imigrantes marroquinos judeus radicada em Paris. Quando ele nasce com um pé torto, os médicos vaticinam que ele será deficiente toda vida e recomendam o uso de uma órtese. Não contavam com a obstinação de sua mãe, Esther, que decide que o filho vai curar-se e só irá a escola andando com os próprios pés. Nos cinemas.

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Baseado no romance autobiográfico de Roland Perez, o diretor canadense Ken Scott constrói esta espirituosa homenagem a uma iídiche mama típica - Esther Perez, vivida com brio pela atriz francesa Leila Bekhti.

A atriz abraça a personagem com toda energia, ternura e humor possíveis, humanizando uma mulher sem dúvida controladora e possessiva em relação ao filho caçula, Roland, que nasce com uma deformação num dos pés. Sua superproteção ao filho começa desde a infância, apoiada no fato de que ela não aceita de modo nenhum o parecer de uma legião de médicos, que desenganam a criança de uma possibilidade de cura, aconselhando o uso de uma órtese para que o menino possa andar.

Para Esther, o menino (vivido pelo cativante Nahim Naji entre 5 e 7 anos) inclusive não deve ir à escola até o dia em que possa ir andando com os próprios pés. Para isso, ela procura toda espécie de conselho de cura, até encontrar apoio numa terapeuta heterodoxa, a sra Vergepoche (Anne Le Ny). Ela recomenda um tratamento com o uso de coletes e cintos ajustáveis, o que implica que o menino fique mais preso à casa do que nunca.

Sua distração é observar as irmãs, de quem acaba adquirindo a paixão pela cantora Sylvie Vartan, um dos maiores ídolos franceses dos anos 1960, ao lado do marido, Johnny Halliday. Essa adoração permite ao menino suportar o desconforto de seus equipamentos de cura e também ganhar o estímulo que lhe faltava para finalmente aprender a ler sem ir à escola - uma situação que já o colocara na iminência de ser mandado a um lar adotivo pela rigorosa inspetora educacional sra Fleury (Jeanne Balibar), devido à obrigatoriedade legal de crianças frequentarem a escola.

É comovente e divertida também a dedicação da mãe ao filho, que ela obstinadamente salva de tornar-se um deficiente, como todos os especialistas vaticinaram. O sucesso, no entanto, torna-se um fardo na vida do filho, na vida adulta interpretado por Jonathan Cohen. Seus irmãos partem para vidas próprias, enquanto ele fica na casa dos pais, continuando a ser superprotegido pela mãe - que continua a tratá-lo como criança e deseja interferir até em seus interesses amorosos.

Quando na faculdade de Direito ele manifesta uma queda pela colega Litzie (Joséphine Japy), que frequenta sua casa, a mãe decide que ela é a mulher certa - mesmo que ela já seja casada. Se finalmente o destino joga a favor da união, esta não será a última vez que Esther se mostrará invasiva na vida do filho, que tem dificuldade de lidar com a enormidade de sua influência.

O filme acerta no tom do perfil desta mulher extraordinária sem desumanizá-la, colocando também em foco esta inusitada ligação do protagonista com a cantora Sylvie Vartan - que interpreta o próprio papel na idade madura, quando se torna cliente do advogado Roland, que fez muito bem em transformar em livro sua saborosa autobiografia, rendendo um filme sensível ao qual não falta bastante humor. 

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