É preciso encontrar maneiras próprias para se aproximar do longa experimental Aquele Que Viu o Abismo, vencedor do prêmio de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes de 2024. Esse lastro já diz muito sobre o filme, que busca em seu experimento romper com linguagens.
E assim o faz, sem deixar qualquer substrato para aqueles que se aventuram nele. Cena após cena, nos deparamos com um experimento sensorial marcado por excesso de cores, ruídos e afins. É um filme que se apoia na recusa de qualquer convenção. E pode, por um lado, jogar a linguagem num outro lugar, mas, ao mesmo tempo, alienar as possibilidades de interpretação.
O cantor e ator Negro Leo, que assina a direção com Gregorio Gananian, interpreta o protagonista, que tenta sobreviver a um sistema opressor. Tudo isso podemos inferir, o que vem depois, fica por conta de cada um. E aí está a graça – ou o oposto – do longa. Deixar-se levar por seu delírio de neon, ou fincar os dois pés no chão e se recusar a abstrair em sua viagem alucinada?
Há, sem dúvida, uma criação imagética que lança cores e brilhos para todo lado sem se importar muito com quem está do outro lado da tela. Filmado em São Paulo e na China, onde o projeto começou com uma residência artística, o longa parece se construir de forma aleatória, acumulando imagens que, uma empilhada na outra, mais esvazia qualquer sentido do que o acumula. Assim, se quando se olha para o abismo, ele olha de volta para você, quem é o “aquele” do título do filme? Talvez o “aquele” seja o próprio público.
