Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, é, de saída, um filme sobre o luto. O enredo parte de um trágico acidente de ônibus, que custa a vida da maioria dos passageiros e de seu motorista, Wesley (Renato Novaes). A perspectiva é a da mãe do motorista, Vicentina (a extraordinária Rejane Faria), uma aposentada de 75 anos que lida com a própria dor por meio dessa tentativa de um inusitado pedido de perdão às vítimas do acidente.
Essa atitude de Vicentina descobre as outras camadas da história, a primeira delas, a ética. Afinal, que responsabilidade teve essa mãe no fato de o filho ter causado o desastre ? Essa faísca inicial incendeia o filme num movimento de engajar o seu público numa busca ativa de motivações e questionamentos. Até porque provavelmente poucos imitariam a atitude de Vicentina, preferindo o silêncio e o isolamento.
Ao colocar seu rosto no mundo, procurando as vítimas por telefone e, quando o aceitam, visitando-as pessoalmente, Vicentina procura ocupar o imenso vazio deixado pela morte do filho, com quem morava, ao mesmo tempo que lidar com os próprios questionamentos sobre o que aconteceu - especialmente quando se levanta a suspeita de que Wesley pode ter provocado a tragédia intencionalmente.
Não vem ao caso se se sustenta a hipótese, que até convém à empresa de ônibus, que evidentemente será acionada judicialmente pelas famílias dos mortos - um caminho que o enredo se recusa a seguir. O que sim interessa a Martins, também roteirista, é o que pensa Vicentina de tudo isto, encarando o quanto desconhecia aspectos sobre o próprio filho - o que se reforça a partir das intervenções de Fred (Giovanni Venturini), um amigo de Wesley.
O que é mais importante talvez neste drama denso é, mais do que encontrar respostas, delinear o caminho das inevitáveis incertezas da própria vida, com lacunas que nunca se irá preencher. Este caminho torna-se cada vez mais nítido a partir das interações de Vicentina com familiares das vítimas, como Isabel (Grace Passô), que mantém a festa de aniversário da avó nonagenária morta no acidente, numa celebração comunitária da ancestralidade que convida também a própria Vicentina.
Como seria de se esperar, Vicentina também é recebida com raiva e revolta, como pelo pai de uma jovem vestibulanda, Luiz (Flávio Bauraqui), ou um trabalhador (Carlos Francisco) que se ressente da perda econômica com a morte da filha e exige dinheiro da mãe do motorista. Nessa parte, o filme caminha num rumo de sombras, que talvez se estenda um pouco além do necessário - talvez um ou dois encontros de Vicentina pudesse ter sido cortado, já que os outros são tão iluminadores.
Mas, progressivamente, há também o rumo em direção à luz, especialmente a partir do encontro com uma rara sobrevivente, Amélia (Barbara Colen), que estava grávida e salvou-se, assim como o bebê. Abre-se, então, o momento em que Vicentina deverá decidir como sua própria vida continua, no que conta com a indispensável parceria da amiga Joana (Maíra Azevedo), que é sempre uma nota de afeto e humor num relato predominantemente sombrio, uma nota corajosa do diretor, integrante da Filmes de Plástico, coletivo que tem produzido alguns dos melhores filmes do País nas últimas duas décadas.
