O veterano diretor egípcio Youssef Chahine (autor de um dos episódios de 11 de Setembro arma uma trama que mistura romance, terrorismo e intriga familiar.
- Por Rodrigo Zavala
- 22/01/2004
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Produções como A Outra têm todos os ingredientes para tornarem-se grandes filmes. Um bom argumento, bons atores e uma infinidade de temas que podem e merecem ser explorados por seus produtores. No entanto, pecam pela clara deficiência de roteiro e direção, extraindo toda a originalidade que poderiam ter. Resta apenas uma gama de assuntos entreabertos que não justificam o filme ou mesmo sua história irregular e pouco interessante.Não deixa de ser curioso que essa falha ainda se vê nas produções do veterano diretor egípcio Youssef Chahine. Mesmo em seu curta para 11 de Setembro (2002), os erros de desenvolvimento da história são evidentes. Mas é ainda mais espantoso como a crítica francesa foi benevolente com ambas as produções. O jornal L'Express, por exemplo, chegou a dizer que A Outra mostra um diretor "em grande forma". Um equívoco. Numa militância pelo politicamente correto, a produção atira para todos os lados. Mostra uma sociedade egípcia corrupta, os males da hegemonia americana no mundo, os horrores praticados pelos grupos terroristas, permeando a relação entre Adam, Hanane e a mãe do rapaz. Ele, um representante da elite dominante, ela, uma pobre jornalista que começa a investigar um suposto golpe milionário que a família de Adam planeja executar. Enquanto isso, a mãe do rapaz, Margaret, faz de tudo para atrapalhar o casamento dos jovens, num ímpeto de superproteção e certo ar de incesto.Como se isso não bastasse, o irmão de Hanane é o comandante de um grupo terrorista, cuja história Adam quer acompanhar para sua pós-graduação nos Estados Unidos. Tudo isso recheado com vozes conclamando a paz entre os povos e questionamentos sobre os valores religiosos e políticos. Embora os temas casem, o filme não consegue fluir de forma instigante ou sedutora. O grupo terrorista só pode ser visto pela ótica do deboche, o que não deve ser o caso, aqui. Já a história de amor deixaria Camilo Castelo Branco corado, graças às cenas de um extremo clichê que irrompem na tela para desconforto dos espectadores. Para piorar, a trilha sonora não coopera nessas passagens. Nem a personagem da atriz Nabila Ebeid, Margaret, se salva nesse contexto. Exagerada e repleta de opiniões canhestras, chega a parecer uma vilã de telenovelas. Pouco se salva no saldo final de A Outra. O que fica realmente evidenciada é a preocupação com o fanatismo que deixa cicatrizes por todo o Oriente Médio. Mas, infelizmente, o tema é tratado apenas superficialmente, não justificando os absurdos da trama.
