O diretor Larry Clark transita com facilidade no terreno minado da polêmica. Seus trabalhos mais recentes, sempre com personagens adolescentes, como Kids e Bully, traçam um retrato nada animador de uma geração acuada e cuja resposta aos estímulos que recebe se traduz em impulsos violentos ou na simples alienação. Em Ken Park, que chega agora ao Brasil depois de uma première nos festivais de Veneza e Toronto, em 2002, e uma rápida exibição na 26ª Mostra BR de Cinema no mesmo ano, o diretor radicaliza ainda mais.
Clark, que começou a carreira como fotógrafo, divide a direção de Ken Park com outro fotógrafo, Ed Lachman. A visão dos dois diretores, certamente pela identidade com o manuseio de lentes e diafragmas, privilegia o registro de flagrantes na vida de um grupo de adolescentes, como um álbum fotográfico com lembranças de uma infância perdida, da adolescência vazia e um futuro nada promissor.
O personagem do título, Ken Parker, pouco aparece no filme mas sua sombra pesa sobre os demais amigos de seu grupo. Ele é visto no início com uma câmera de vídeo registrando seus últimos minutos de vida, no momento em que decide explodir a cabeça com um tiro de revólver. Numa América já traumatizada pelos estragos causados pela cultura armamentista, a morte de mais um jovem serve apenas de estatística. Mas o diretor não pensa assim.
Para os amigos, que relembrarão a trajetória de Ken Park em flash back, o choque com a morte do rapaz se dilui diante de suas próprias histórias, todas com uma dose particular de tragédia com potencial igualmente explosivo. O motivo que o levou à decisão extrema só será conhecido no final.
A história de cada um é muito simples, mas todas carregam um componente que as torna exemplares. Se são chocantes, segundo o diretor, é porque hoje é possível tirar o manto que encobre a vida de famílias cujo comportamento sempre foi tido como modelo. Violência doméstica e abuso sexual sempre existiram, afirma o diretor, mas eram temas intocados no passado. Shawn (James Bullard) é um jovem que mantém um caso com uma mulher mais velha mas ainda atraente, mãe de sua namorada. Claude (Stephen Jasso) tem dificuldades de relacionamento com o pai, desempregado e alcoólatra. Peaches (Tiffany Limos) é estuprada pelo pai viúvo, que a vê como extensão da mulher morta, por sua extraordinária semelhança física. echoua Tate (James Ransone) é violento com os avós e procura maior prazer asfixiando-se ao se masturbar.
As cenas são realistas, algumas imagens explícitas e várias simulações de sexo, muito convincentes. O filme pode incomodar por suas cenas sexuais, mas o mais chocante são os dramas pessoais de cada jovem, a total falta de perspectiva, o beco sem saída em que estão metidos. Como lembrou o crítico Todd McCarthy, da Variety, "espectadores que puderem transitar por toda a aparente sordidez e conectar-se à humanidade dos personagens, a partir de suas carências, poderão sem dúvida considerar o filme um relato sincero e poderoso de vidas destruídas".
