06/06/2026
Documentário

O Prisioneiro da Grade de Ferro

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Por mais que as imagens poderosas de Carandiru tenham colado nas retinas de um público recorde de 4,5 milhões de espectadores, este documentário terá ainda algo a dizer, funcionando, mesmo sem intenção, como uma espécie de contraponto e até de complemento ao relato ficcional de Hector Babenco.

Partindo do mesmo universo - o então maior presídio da América Latina, o Carandiru - o documentário de Paulo Sacramento procurou inverter a mão do cinema, entregando câmeras digitais aos presidiários para que filmassem sua própria versão do que acontecia dentro daquelas paredes, nos sete meses que antecederam a desativação do presídio, ocorrida em setembro de 2002. Depois de um curto treinamento com Sacramento e o diretor de fotografia, Aloysio Raulino, os detentos filmam uma série de cenas cotidianas que procuram armar um diálogo com quem está do lado de fora.

Apoiado na montagem realizada pelo cineasta e sua equipe - os presos não puderam participar dessa etapa - o filme mantém sua poderosa autenticidade de origem no retrato das situações que os próprios detentos escolheram como mais definidoras de sua condição. Como a tentativa de documentar a exasperante passagem do tempo dentro dos muros do presídio, fixada numa das seqüências mais eficazes do filme. Um grupo mantém ligada a câmera numa cela por toda a longa noite, que começa para os internos a partir do momento em que as portas são trancadas, às 16h30. Além dos próprios desabafos diretamente para a câmera, os detentos documentam suas tentativas de relacionamento à distância pela janela, flertando com moças num prédio próximo, e também captam a imagem de um guarda que, estando de sentinela nos muros externos, os fica provocando verbalmente o tempo todo. Um retrato eloqüente da relação tensa, quase sempre reciprocamente desrespeitosa, entre os internos e seus vigilantes.

Outras cenas cotidianas acompanham as sessões de tatuagem, a fabricação da clandestina "maria louca", a aguardente que não falta em nenhuma cela, um muito tolerado comércio e consumo de drogas, ritos religiosos, jogos de futebol e a impressionante emergência de ratos no pátio.

Com um retrato assim despojado de uma humanidade fraturada, o filme é feliz em sua proposta inicial. Grande vencedor da competição brasileira, internacional e do troféu da Associação Brasileira de Documentaristas no Festival É Verdade/2003, O Prisioneiro da Grade de Ferro também acumulou o prêmio da crítica para este formato no Festival de Gramado/2003.

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