06/06/2026
Drama

O Pântano

Mecha e Gregorio, cinqüentões decadentes e alcoólatras, contemplam o vazio de sua vida no seu sítio. Em torno deles, filhos e empregados entregam-se ao ócio, sob um calor sufocante. A prima de Mecha, a enfermeira Tali e o marido Rafael evitam o mais que podem o contato com os parentes, pensando em proteger seus filhos do ambiente doentio. Na Mubi.

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Lucrecia Martel estréia aqui como roteirista e diretora em longa-metragem, traçando uma estratégia de incômodo. Sua dura crônica familiar cutuca as pessoas no lado que dói, onde arde, onde suja, onde não se consegue esconder. Mas não distancia, ao contrário: puxa quem o vê para o pântano, tanto literal quanto metafórico da narrativa.

O espectador disposto a acompanhar esta vertigem fica estranhamente hipnotizado pelo sufoco que envolve duas famílias. A primeira, liderada pelo casal Mecha (Graciela Borges) e Gregorio (Martin Adejmian), cinqüentenários decadentes e alcoólatras, que contemplam o vazio absoluto de suas aspirações à beira de uma piscina de água escurecida, há muito não-limpa, no seu sítio, chamado La Mandragora. Em torno deles, amontoam-se os filhos, uns pré-adolescentes, outros já jovens, entorpecidos pelo calor, largados pelos quartos da casa, ou perseguindo pequenos animais no bosque próximo com rifles impróprios para as crianças que ainda são.

Estabelecido o vácuo moral e ideológico em que se situa a família - ilhada em sua propriedade pela mesma força irracional e irresistível que aprisionava os burgueses na igreja de O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel - não é difícil enxergar no clã o paradigma de uma Argentina atolada na crise econômica, na apatia social e política. Mas seria reducionista esgotar o filme apenas por esse aspecto.

A outra família, chefiada pela prima de Mecha, a enfermeira Tali (Mercedes Moran), e o marido Rafael (Daniel Valenzuela), evita o mais que pode o contato com o clã de La Mandragora. Rafael, especialmente, não quer expor seus filhos ao ambiente doentio em torno da prima da mulher. Engana-se, porém, ao achar que sua própria família está livre da doença que acomete os parentes - é apenas uma questão de grau de exposição, mas todos estão inevitavelmente contaminados. Inclusive pelo medo. Seu filho caçula, Luciano (Sebastian Montagna), vive assombrado por relatos sobre cães-ratazanas e fabrica suas próprias e aterradoras fantasias sobre o que está do outro lado da parede do vizinho.

Figuras quase totalmente ausentes do cinema argentino, as populações indígenas aqui dividem a cena com os descendentes de europeus, como os empregados da família burguesa a quem se atribuem roubos, preguiça, ignorância e todos os vícios. Numa situação, este conflito latente eclodirá em violência, mas esta não é a regra. Lucrecia Martel fala de pessoas sufocadas a ponto de explodir - mas que, em geral, apenas implodem.

Paralelamente, os relatos nos noticiários de TV mencionam as misteriosas aparições da Virgem Maria a fiéis que se multiplicam dia-a-dia. Nesse contexto sem esperanças, tudo o que parece viável é a procura de um milagre.

Com um retrato assim tão veemente de um momento de impasse na Argentina - o filme é de 2001, auge da crise econômica -, Lucrecia Martel firma seu nome como estreante das mais promissoras. Não foi por menos que seu segundo longa, A Menina Santa, foi selecionado para a competição do Festival de Cannes/2004. Ela é, igualmente, um dos argumentos de Walter Salles para afirmar que a Argentina faz hoje o melhor cinema jovem do mundo, superior mesmo, em sua opinião, ao festejado cinema asiático.

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