26/08/2026
Drama

Esposas em Conflito

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Muito antes de Stephen King reinar absoluto no mundo da literatura de terror havia Ira Levin. Nos anos 60 e 70 tirou o sono de milhares com seus livros de suspense, como O bebê de Rosemary, Os Meninos do Brasil e Mulheres Perfeitas, relançado no Brasil recentemente. Mais do que imagens arrepiantes, ele assustava pela sugestão. Seus personagens estavam muito acima da linha que separa a lucidez da insanidade. Mas, a maior semelhança entre as três histórias é que ambas mostram pessoas que não são bem aquilo que parecem ser.

As vizinhas ocupam um lugar muito especial nessa galeria de falsas aparências. Provavelmente depois da versão cinematográfica, nenhuma mulher grávida chegou perto de simpáticas vizinhas velhinhas com vitaminas revigorantes. Em Esposas em Conflito ('tradução' que acharam para Stepford Wives), Levin e o cineasta Brian Forbes levam a aberração-que-mora-na-casa-ao-lado a um nível mais extremo.

À primeira vista Stepford é a cidade dos sonhos, calma, sem violência, sempre ensolarada e, acima de tudo, uma cidade para ser feliz - afinal, todos os moradores, e principalmente as moradoras, são muito felizes. Joanna Eberhart, uma fotógrafa amadora, muda-se com o marido e as filhas para a pequena cidade, em busca de uma vida mais tranqüila.

Logo nos primeiros minutos ela deixa transparecer o seu desapontamento e a saudade da velha e amada Nova York, quando confessa a uma velhinha, responsável pelo jornal local, que o que mais vai sentir falta é do barulho. Sem ter muito o que fazer, ele procura travar amizade com suas vizinhas. Mas elas nunca têm tempo, pois estão sempre muito ocupadas com o trabalho doméstico.

Joanna acaba conhecendo Bobbie Markowe, uma também recém-chegada a Stepford que está entediada com a cidade e a falta de amigas. Juntas decidem formar uma associação de mulheres, para discutir assuntos sociais e políticos, mas estranhamente, nenhuma moradora da cidade se interessa. Afinal, como elas mesmas dizem, estão satisfeitas com o trabalho doméstico que ocupa todo o tempo. 'Há algo de estranho acontecendo na cidade de Stepford' é o que diz o pôster do filme.

Tanto o filme quanto o livro foram lançados pouco depois da chamada segunda onda do feminismo, que aconteceu nos anos 60. Naquela época, os papéis sociais e econômicos de homens e mulheres eram muito mais rígidos, e o movimento social das mulheres tentava mudar esse paradigma. No entanto, o filme acabou caindo em desgraça, sendo acusado de machista pelas mulheres; e de feminista pelos homens. Mas na verdade o que o cineasta fez foi uma deliciosa e divertida brincadeira que mistura humor negro com ficção científica.

O roteiro do premiado escritor William Goldman (Butch Cassidy & Sundance Kid) dá margem a ambas interpretações. De um lado a fantasia de muitos homens (não só naquela época) a esposa que faz de tudo, é dona-de-casa, mãe, e objeto sexual; de outro a vingança de muitas mulheres em 'denunciar' que alguns maridos transformam as suas esposas em verdadeiros robôs, que nada têm de humano.

Oscilando entre os dois gêneros, Goldman criou momentos memoráveis. Como um em que uma das esposas de Stepford entra em 'curto-circuito' em um festa, e não pára de falar "Eu vou morrer se não conseguir essa receita". A cena é hilária, mas assustadora, quando percebemos que aquela vizinha não é bem uma mulher.

A bela Katherine Ross (a filha de Anne Bancroft em A Primeira Noite de um Homem) é a encarnação perfeita de Joanna. Bela e frágil, ela é uma verdadeira 'esposa em conflito' não por querer servir seu marido, mas por estar presa a uma cidade e uma vida insípidas. Mas quem rouba o show muitas vezes é Paula Prentiss, no papel de Bobby. É inegável que no momento em que a belíssima Paula entra no filme ela traz uma nova energia, um certo brilho e empolgação de que o filme tanto necessitava.

Embora seja um pouco mais explícita em sua conclusão do que o livro, essa versão de 1975 está bem acima do remake de 2004 estrelado por Nicole Kidman. Na versão atual, os excessos kitch e o final-surpresa -além das contradições do roteiro- só servem para aumentar a apreciação deste original, que oportunamente é lançado em DVD.
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