06/06/2026
Drama

Cama de Gato

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A versão cinematográfica daquele velho ditado "a curiosidade matou o gato" poderia ser "a pretensão matou o Cama de Gato". Trocadilhos a parte, uma boa idéia e ousadia nunca fizeram mal a ninguém. Na verdade, até são o combustível para transformar o cinema. No entanto, há uma linha tênue que separa a genialidade da pretensão. E esta, por sua vez, é bem discutível.

O movimento Dogma 95, criado por um grupo de cineastas dinamarqueses, entre eles Lars Von Trier (que mais tarde o abandonaria), costuma dividir opiniões. Para uns, eles são os gênios do cinema contemporâneo; para a maioria, um bando de marqueteiros espertos. Independente de qual lado tomar nessa discussão, o jovem diretor brasileiro Alexandre Stockler resolveu criar o TRAUMA (Tentativa de Realizar Algo Urgente e Minimante Audacioso), uma espécie de resposta tupiniquim ao Dogma.

E é aí que ele mata de uma vez só meia dúzia de vidas do seu gato. A escolha pela ausência de uma formalidade técnica, além de discursos intelectuais na hora errada, transforma Cama de Gato em um esforço vazio. A tentativa do diretor estreante de pintar um retrato da juventude de classe média paulistana cai numa mesmice desnecessária. A constante necessidade de querer chocar a cada cena apenas atrapalha algo que chocaria naturalmente.

Apesar da tentativa de se aproximar do Dogma, Stockler e seu cinema estão muito mais próximo de Larry Clark (de Kids e o recente Ken Park). Não só pelo aspecto visual, mas principalmente por causa da descrença na juventude.

Cama de Gato, que ganhou o prêmio do público de melhor filme brasileito na Mostra de São Paulo em 2002, praticamente invade uma noite na vida de três amigos inseparáveis, todos filhos de uma classe média abastada - ou melhor, 'bastarda', como eles mesmos dizem - que decidem curtir além da conta. A situação se transforma em uma bola de neve e, naturalmente, foge do controle - se é que haveria algum desde o início.

Cristiano (Caio Blat), Chico (Rodrigo Bolzan) e Gabriel (Cainan Baladez) estupram uma menina na casa de um deles. Isso já seria forte o bastante não fosse pelo fato de matarem acidentalmente a mãe de Cristiano. Entrando em desespero, eles buscam as soluções que soam mais implausíveis do mundo.

Mas é nesse ponto que entra o componente mais interessante do filme. O desenrolar da história, as soluções, foram construídas em cima de depoimentos coletados por Stockler e sua equipe. Jovens da mesma idade dos protagonistas, entrevistados em baladas, ditam os atos dos amigos do filme. Esses depoimentos, mostrados na abertura e no encerramento, mostram que a realidade, muitas vezes, é mais assutadora do que a ficção.

Esses depoimentos e o desenrolar da trama seriam suficientes para fazer um filme no mínimo surpreendente. Mas Stockler insiste em 'traumatizar' o longa e sua platéia apelando para pirotecnias da forma. Talvez só o baixo orçamento de Cama de Gato, que finalizado custou cerca de R$100 mil, justifique tais malabarismos.

Nesses tempos de misteriosos assassinatos de mendigos na cidade de São Paulo, Cama de Gato se torna ainda mais atual. Porém, o desfecho banaliza tudo o que se viu até então. Não que o filme precisasse de uma conclusão moralizante, mas o final só comprova que seus protagonistas são meninos mimados e que, no fim, tudo podem. E Deus ainda diz Amém.

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