Como a maioria das seqüências, A Supremacia Bourne requer uma certa familiaridade com o primeiro filme da trilogia, A Identidade Bourne (2002). Porém, passados uns dez minutos iniciais, o longa pode parecer confuso - mesmo para os fãs do anterior. E isso não é obra do acaso. Após um preâmbulo introdutório, no qual vê-se o espião Jason Bourne (Matt Damon, de Gênio Indomável) onde ele foi deixado no final de A Identidade - ou seja, num lugar paradisíaco ao lado de sua bela namorada Marie (Franka Potente, de Corra Lola Corra) - o cineasta Paul Greengrass (do excelente Domingo Vermelho) joga personagens e platéia no epicentro da ação, que terá um final trágico, mas que deixará o atormentado personagem mais próximo de descobrir quem ele é.Mais global do que A Identidade Bourne, esse novo drama de ação mantém a mesma questão central do filme anterior: quem é Jason Bourne? E independente de quem ele seja, há pessoas que não o querem vivo. O chacal da vez é Kirill (Karl Urban), uma espécie de Jason Bourne russo contrado por um magnata para acabar com o assassino. Ao mesmo tempo, a CIA perde dois homens com a explosão de uma bomba, e as digitais de Bourne são encontradas no local do crime.Para localizar o ex-agente, Pamela Landy (Joan Allen) é obrigada a pedir ajuda a Ward Abbot (Brian Cox), um agente que está em vias de se aposentar. Entra também em cena Nicky (Julia Stiles), uma das poucas pessoas dentro da agência que já tiveram contato com Jason Bourne em sua fase de amnésia. Isso colocará o assassino em contato com a sua ex-agência e cada vez mais próximo de seu misterioso passado.Usando técnicas e táticas que aprendeu em seu treinamento anos atrás, Bourne se mostra em forma como nunca. Em Munique, ele se envolve em uma acirrada luta corporal com um ex-colega, vivido por Marton Csokas, que apesar de pouco tempo em cena tem uma participação impressionante. Rodada em um pequeno apartamento, a luta é visceral com uma coreografia de socos e golpes magistralmente orquestrada. Apesar de partir praticamente de onde Doug Liman terminou o primeiro filme, Greengrass impõe seu estilo e técnicas próprias fazendo dessa uma continuação que não envergonha o original - muito pelo contrário, A Supremacia Bourne é muito mais saborosa e bem realizada do que A Identidade Bourne. Novamente o cineasta se mostra um especialista no cinema vérité que tão bem usou em Domingo Sangrento. Com sua câmera quase documental ele cria uma linguagem do caos urbano, que acaba se misturando com a confusão que consome a mente de Bourne em busca de sua identidade. Greengrass é um dos poucos cineastas da atualidade que sabem usar edição com cortes rápidos - mas sabendo distinguir entre o chamado 'Estilo MTV' e ter um propósito dramático, não arbitrariamente. Damon já imprimiu sua marca em Bourne. Não dá para imaginar outro ator fazendo o desmemoriado assassino. O que mais atrai no estilo do ator é sua capacidade de se igualar à platéia. Desprovido de uma aura de estrela inatingível, ele é só mais um cara como qualquer outro. Reprisando Bourne, Damon inclui mais uma nuance em sua galeria de personagens que desejam ser algo que não são. O Bourne desse filme já não é mais o mesmo de A Identidade: ele sabe mais sobre si, mas ainda não toda a verdade. Como em O Talentoso Ripley, em que queria ser rico, ou em Gênio Indomável, em que queria ser menos complicado, Bourne anseia não ser o que ele realmente é: um assassino.O elenco de coadjuvantes também destaca atores que fazem um trabalho mais centrado em personagens - praticamente nenhum deles participou do filme anterior. Quem mais se destaca é Joan Allen no papel de uma chefona da CIA, que pode estar sendo usada para capturar Bourne.Talvez a única pessoa que tenha uma dimensão real do personagem Jason Bourne seja o roteirista Tony Gilroy, que também escreveu o primeiro filme e é quase uma escolha natural para escrever a última parte da trilogia. Apesar da série ser baseada nos livros (todos publicados no Brasil) do escritor norte-americano Robert Ludlum (1927-2000), pouco resta das referências literárias. O trabalho de Gilroy foi além de escrever um roteiro baseado em livros - ele criou um verdadeiro universo para Jason Bourne, atualizando o personagem, seus conflitos e as tramas. E, no final de A Supremacia Bourne, ele deixa o gancho perfeito para a conclusão dessa série que tem tudo para entrar para a história do cinema como uma das melhores sobre intrigas e espionagem.
