Bernardo Bertolucci parte para seu terceiro filme em Paris - três décadas depois de O Conformista (1970) e O Último Tango em Paris (1972) - para reconstruir uma época através de sensações. Neste retrato emocional do ano mítico de 1968, ele se vale de fragmentos de música, filmes, discussões que correriam o risco de parecerem datadas, caso o cineasta não lhes injetasse a pulsação da vida que se conjuga no presente. E consegue aproximar mesmo as gerações que não estiveram lá dos sentimentos que culminaram com uma das rebeliões mais libertárias do século XX.
Mesmo os que não o viveram sabem que 1968 foi um divisor de águas, ainda que não se morasse em Paris. O mundo inteiro mergulhava numa espécie de frenesi, um terremoto em busca de mudança. Certamente, a capital francesa foi seu epicentro, com estudantes tomando as ruas e enfrentando policiais com paralelepípedos e coquetéis molotov. Uma efervescência que teve ecos em Praga, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro, onde quer que houvesse uma única alma jovem que respirasse. Porque 1968 foi o ano da revolução jovem. E, por algumas semanas, em Paris, eles tomaram o poder.
Partindo do livro e do roteiro adaptado pelo próprio escritor, o inglês Gilbert Adair - que, como Bertolucci, foi testemunha ocular dos fatos em Paris -, o filme decola na pele de três jovens: os irmãos gêmeos Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel) e o americano Matthew (Michael Pitt). Quase todo o tempo, a história dança em torno desses três personagens básicos, cujos corpos vibram ao sabor de idéias e práticas incendiárias - dentro do apartamento de onde eles nunca saem, quase tão tórridas quanto nas ruas, tomadas de carros virados, paralelepípedos arrancados e de manifestantes que gritam "é proibido proibir". Só que a política do trio é a política do corpo, antes de mais nada.
Os três conhecem-se na porta da Cinemateca Francesa, o centro onde se reuniam as tribos de cinéfilos fanáticos, que se alimentavam de cinema com uma avidez toda particular. Perder um filme era como ficar para trás, não alcançar o fio de uma idéia que estava no ar, e não poder participar dos partidos que se formavam contra e a favor de tudo, em batalhas verbais que pareciam discussões de vida ou morte. Diante do palácio da Cinemateca, Isabelle enxerga em Matthew o cúmplice que falta na partida solitária jogada com o irmão. Uma jornada de corpo e alma, que parece fadada a empatar eternamente, a não ser que um elemento ímpar rompa esse equilíbrio. Esse elemento é Matthew, o estudante americano que não conhece ninguém na cidade e se interna na sala escura vivendo a vida dos filmes de Jean-Luc Godard, Buster Keaton, Howard Hawks, Nicholas Ray, Samuel Fuller, François Truffaut ou quem quer que se apresente.
Dentro do antigo apartamento, estão ausentes os pais - viajando - bem como as multidões que se tornaram os ícones de 1968. Nessa esfera íntima, fica mais fácil à história explorar a profundidade das pulsões. Lá fora se teoriza, ali dentro se pratica, seja a liberdade do corpo ou das idéias. Tudo é possível, tudo é permitido, tanto quanto naquele apartamento de O Último Tango em Paris. Os Sonhadores bem pode, aliás, ser visto como a infância do filme de 1972 e, dependendo de quem o assiste, com escândalo semelhante. Mais de 30 anos depois da aventura radical de Maria Schneider e Marlon Brando em O Último Tango... - que chegou a ser proibido pela censura no Brasil -, decretou-se a morte das utopias e o domínio do pragmatismo. Bertolucci, porém, acredita que tudo mudou para sempre em 1968 e também nisso não há volta. Investindo nas emoções eternas que renascem a cada geração, desperta cumplicidade e empatia em torno de seu filme, que é tão visceral quanto poético, como poucas obras-primas sabem ser.
