O amor costuma deixar as pessoas loucas - ao menos no cinema. E o que acontece quando esses corações apaixonados já não têm a mente tão sã por natureza? A resposta está na excelente produção turco-alemã Contra a Parede, dirigida por Faith Akin, e que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2004 - rompendo um jejum de vitória de filmes alemães de 18 anos. Stammheim, de Reinhard Hauff, foi o último a faturar o prêmio.
Muitas vezes, Contra a Parede parece o trabalho de um gênio precoce - no bom sentido da expressão. Mostra um jovem diretor - ele tinha apenas 30 anos quando fez o filme - cheio de energia e perspicácia para abordar diversos temas, numa mistura de gêneros que vai desde um romance, passando por humor negro e convergindo para um drama complexo e profundo. Tudo isso tendo como pano de fundo o melhor da tradição do "l'amour fou" (o amor louco).
Cahit (Birol Ünel) é um turco de 40 anos que mora em Hamburgo e há um bom tempo segue um comportamento autodestrutivo. O ápice desse padrão é quando ele, após uma noitada, acelera seu carro contra uma parede, numa frustrada tentativa de suicídio. Vai parar numa clínica para pessoas instáveis, onde acaba conhecendo a sua alma gêmea - ou algo parecido. Ela é a bela Sibel Güner (Sibel Kekilli), que lhe pede para casar com ela. Faz parte do plano da moça fazer um casamento de conveniência e fugir do domínio de sua família dominadora e tradicional.
O enlace acontece, mas nem tudo sai como o planejado. À medida em que Sibel literalmente se joga na vida, conhecendo um novo modo de curtir o momento, a relação entre os dois vai se tornando real, o amor louco vai acontecendo, e o casal perde o domínio da situação e se entrega a uma relação extremamente doentia. Sempre pontuada com vinhetas de uma banda à la Emir Kusturica.
Unel é veterano dos filmes de Akin. Já a bela e inesquecível Sibel foi encontrada por meio de um processo de casting feito pelos produtores que procuravam "uma jovem que falasse turco fluentemente e estivesse preparada para se despir diante das câmeras". E, aparentemente, ela nunca teve nenhum problema com essa segunda parte, pois, após a consagração em Berlim, a imprensa de fofocas descobriu que a atriz havia trabalhado em vários filmes pornográficos.
Ao falar do dilema da segunda geração de imigrantes vivendo na Alemanha, o cineasta Akin está tocando numa ferida que ele conhece muito bem. Afinal, ele faz parte desse grupo, é filho de turcos. Com Contra a Parede, ele mostra como pode ser complicado e doloroso ter sua identidade cultural dividida em duas: de um lado, um país que não é o seu, mas que você deve respeitar e conhecer as tradições; de outro, um país onde você mora, mas não tem raízes nele. A melhor forma que ele encontrou de contrastar esse dilema é com a fotografia. O distrito de Hamburgo-Altona concentra classes populares, e é multicultural, escuro e opressor. Já Istambul é clara, brilhante e ensolarada. Essa não é a única contradição que Akin explora. Ele mostra um amor que pode, ao mesmo tempo, ser redentor e destruidor.
