As longas conversas entre mãe e filho, espinha dorsal da história de Santiago Carlos Oves (também o diretor), na verdade são o melhor de tudo. Há espírito, afeto e um humor cínico bem ao gosto argentino. A mãe é descendente da longa linha de mães cinematográficas hispânicas de Pedro Almodóvar. Ela é dona do tempo e das manipulações e mantém em suspenso a nora (Silvina Bosco) que, desesperada para manter ao menos um pouco do status perdido, insiste que o marido venda o apartamento em que mora a mãe. Mas ela se recusa terminantemente.
A pretexto de convencer a mãe desta venda, que pode ser sua salvação financeira, o filho visita-a com bem mais freqüência do que em seus dias de sucesso profissional, quando mal lhe telefonava. Como toda mãe do mundo, ela o cobra por essas contas passadas, pela decepção de ter ficado tantos dias cozinhando para ele, que nunca tinha tempo de comer com ela. Agora, o tempo sobra para Jaime e lhe dá oportunidade de uma rara redescoberta do próprio passado e de sua mãe, que, contra sua expectativa, foi capaz de arrumar um namorado.
E não um namorado qualquer: um autodenominado “anarco-aposentado” que gosta de freqüentar manifestações de rua, em pleno auge da crise monetária argentina, e de frases feitas, que a namorada repete para o filho incrédulo. Um aposentado que ela conheceu ao surpreendê-lo roubando os restos de comida que ela deixava aos gatos de rua – outro sinal da penúria das aposentadorias sul-americanas.
Mesmo colocando esses detalhes sociais como pano de fundo, o filme nunca se propõe a discuti-los de verdade. Opta claramente por um registro sentimental, em torno desse quarentão que procura se reinventar recorrendo ao passado, à tradição, representados por sua mãe – uma escolha reforçada pelos emotivos flashbacks em preto-e-branco que remetem à infância de Jaime com sua mãe. É um filme simples e sem pretensões que procura um público igual.
