Ganhador de sete prêmios em Gramado 2004 (entre eles melhor filme e roteiro), Vida de Menina, de Helena Soldberg, tem roteiro da própria diretora, co-escrito com Elena Soárez (Redentor), baseado no livro de memórias de Alice Dayrell.
Protagonizado por Ludmila Dayer (a menina de Carlota Joaquina), o longa conta alguns anos na vida de Helena Morley (pseudônimo adotado por Alice ao publicar o seu livro) que vive em Diamantina no final do século XIX, uma época em que o ouro já não é mais abundante, e o Brasil acabou de proclamar a República e ainda vive resquícios da escravatura abolida há alguns anos.
A família Helena leva uma vida difícil por conta do pai (Dalton Vigh) sonhador que ainda espera encontrar ouro. Quem mais ajuda é a avó materna (Maria de Sá), de quem a menina é muito amiga. O que desperta inveja do tio que cobiça a fortuna da mãe.
Em seu diário, Helena, que tem uma grande paixão pelos livros e pela escrita, vai contando o seu dia a dia, as aulas na escola, as discussões entre os pais, seus ‘problemas’ de menina. E desta forma, a garota busca a sua liberdade individual e sua identidade – além de ter feito o registro de uma época em seus cadernos.
A melhor amiga de Helena é a avó, que tem a ela como neta preferida, e por isso ter certas regalias que as outras crianças não têm. Esse laço de amizade é a espinha dorsal do roteiro que dá espaço a diversos coadjuvantes que vêm colorir as crônicas da vida da garota.
A Tia Madge (Lolô Souza Pinto), por exemplo, com sua fleuma britânica perdida nos trópicos traz alguns dos momentos mais divertidos do filme que, num todo, tem uma atmosfera leve. Daniela Escobar no papel de mãe de Helena tem uma personagem e uma interpretação bem mais acertadas do que aquela heroína romântica de Diário de um Novo Mundo.
O que mais cativa em Vida de Menina é o talento de Ludmila para dar vida a uma personagem tão simples, e por isso mesmo, tão complexa. A atriz encontrou o tom certo ao encarnar uma garota desbocada e, por isso mesmo, sincera que não é lá muito querida na escola, a quem tacham de esnobe por sua ascendência inglesa.
Embora haja alguns pontos fracos nos atores de Vida de Menina, como Vigh ou Maria de Sá (Copacabana), que nunca realmente se transforma na avó, a opção por uma interpretação mais naturalista é uma escolha acertada. Os intérpretes sempre se mostram à vontade nos seus papéis, criando assim uma empatia com o público.
Parece haver uma lei que obriga os atores de filmes brasileiros de época a falarem com uma empostação como se estivessem declamando um poema antigo. Aqui, ao menos, isso não existe. Os personagens falam e agem como pessoas de verdade, que realmente poderiam tem existido além da dimensão da tela.
Os outros prêmios concedidos em Gramado/2004 - fotografia (Thomas Farkas), direção de arte (Beto Mainieri) e trilha sonora (Wagner Tiso) – só vêm confirmar a qualidade técnica e artística dessa delicada comédia dramática que, embora irá falar mais direto com o público feminino, merece ser descoberta por todos, principalmente aqueles que gostam de produções de época.
