O maior problema de Soldado Anônimo é que em momento algum o filme entra no campo da política. Em seu terceiro trabalho no cinema, o diretor de Beleza Americana dirige um roteiro adaptado por William Broyles Jr. (O Expresso Polar) do livro de memórias de Anthony Swofford. Carregado de energia e uma revolta contra qualquer espécie de conflito armado, o livro transita entre o lirismo e imagens assustadoras dos horrores da guerra com comentários sobre a situação internacional e o papel dos EUA durante os eventos.
O filme nunca coloca os soldados no conflito, transitando entre a adrenalina da vida militar, a ansiedade da espera de um ataque e a frustração do vazio. Mendes consegue alguns momentos inspirados, capturando com competência a mistura entre a tensão, o medo e o desespero. Junto a tudo isso há o inusitado de toda a situação dos soldados praticamente abandonados no deserto debaixo de sol forte.
Do livro de Swofford, o roteiro mantém o imediatismo da situação, do desespero dos envolvidos, mas quando tem a chance de tomar posição – de preferência anti-bélica, como o livro – nunca o faz, embora chegue perto em alguns momentos. Já outras situações perdem suas nuances ao serem transportadas para a tela de forma tão redundante, como quando os fuzileiros voltam para a sua cidade e se encontram com um ex-combatente do Vietnã meio desequilibrado.
Jake Gyllenhaal no papel de Swofford, ou apenas Swoff, para os amigos, é impressionante o bastante. Soldado Anônimo até funciona no que depende dele e dos outros atores, principalmente Peter Sarsgaard, no papel de outro fuzileiro. O personagem é interessante por si próprio, pertencendo à terceira geração de uma família de soldados, ainda que pareça não saber ao certo o que está fazendo no meio da guerra.
No fim, Mendes e Boyles desperdiçam o impacto visceral das memórias de Swooford, caindo em momentos emotivos demais e vazios, perdendo a chance de analisar os efeitos da primeira guerra pós-moderna, a primeira depois da Guerra Fria, e aquela que antecedeu o 11 de Setembro.
