No Festival de Brasília 2005, onde o filme venceu, injustamente, apenas dois troféus técnicos – melhor direção de arte e fotografia -, Veneno da Madrugada dividiu opiniões e colheu quase tantas vaias quanto aplausos da aguerrida platéia jovem daquele festival. O próprio Ruy não terá procurado, certamente, a unanimidade nesta adaptação literária, mais uma vez do amigo Gabriel García Márquez, com a qual tomou todas as liberdades, tornando a obra totalmente sua. Realizou um filme onde é visível o controle da direção nos mínimos detalhes e que obtém o melhor resultado na tela de uma recriação a partir de García Márquez, das quatro que empreendeu. Aqui, ele adapta a novela A Má Hora. Antes, havia filmado do autor Erêndira (1983), A Bela Palomera (1988) e a série para a TV cubana Me Alquilo para Soñar (1992).
Mais do que realismo mágico, o clima da história é de tenso absurdo. Acompanha-se 24 horas na vida de uma pequena cidade, onde não pára de chover e os conflitos entre as famílias mais poderosas e o alcaide (Leonardo Medeiros) estão em ponto de explosão. O alcaide tem sua própria agenda secreta de vingança contra os últimos remanescentes da família Assis, a viúva (Juliana Carneiro da Cunha) e seu filho Roberto (Emílio de Mello).
Uma série de subtramas acirra os ódios e as paixões entre os personagens, num clima de guerra de todos contra todos alimentado, ainda, pelas misteriosas cartas reveladoras de segredos inconvenientes – embora todo mundo os conheça – que de repente começam a ser afixadas nas portas das casas, na calada da noite. Uma das reservas de sanidade neste ambiente desvairado é o padre (Fábio Sabbag) – mas sua intervenção não tem o poder de mudar a mentalidade local, numa metáfora de como a cultura e mesmo a religião não conseguem transformar profundamente a natureza humana.
A qualidade técnica da produção é um capítulo à parte, começar pela edição de som de José Moreau Louzeiro, Cláudio Valderato e Simone Petrillo – o som é fundamental na atmosfera, constituindo quase um outro personagem. A fotografia de Walter Carvalho realiza pequenos milagres no escuro, contribuindo para um certo quê expressionista que atravessa toda a história. Direção de arte (Marcos Flaksman) e montagem (Mair Tavares) fecham a esplêndida moldura do filme, uma das obras mais maduras e fundamentais do moderno cinema brasileiro. Ruy Guerra continua em forma.
