Como o diretor, o personagem Romain (Melvil Poupaud), é homossexual e bem sucedido na sua carreira, aqui um fotógrafo de moda. Mas as diferenças acabam aí. Numa das primeiras cenas, ele descobre que está com um câncer, que as chances de tratamento são poucas e a recuperação, remota. Por isso, ele se nega a se submeter a quimioterapia e afins e resolve viver plenamente os últimos dias de sua vida.
Romain também poupa sua família e o namorado da notícia da doença, tentando agir perante eles como se nada estivesse acontecendo. Ainda assim, mostra um comportamento estranho, principalmente quando confronta a irmã. A única a saber da verdade é a avó, vivida por Jeanne Moreau. Quando ela lhe pergunta porque é a única com que ele se abriu, a resposta é contundente. “Porque você também vai morrer logo”.
Ozon e seu personagem não têm tempo para gentilezas com o mundo. Aqui, tudo é feito como se fosse (e provavelmente é) a última vez. Um último passeio à praia, a última relação, a última vez que vê a avó. Romain, no entanto, não está se despedindo dessas coisas, está apenas vivendo o que gosta, para ter certeza de ter aproveitado tudo, ao menos mais uma vez. Ele poderia levar seus últimos dias dessa forma até que surge uma proposta inusitada.
Ozon é um dos melhores diretores franceses de sua geração, e um dos mais prolíferos, fazendo praticamente um filme por ano. Sua variedade de temas e estilos rivaliza, na atualidade, apenas com o inglês Michael Winterbottom. Por isso, é natural que nem tudo que ele faça esteja num mesmo patamar, como é o caso deste O Tempo Que Resta - que é bonito, bem filmado, mas, muitas vezes, frio e distante. É como se o diretor ligasse seu piloto automático. O resultado é bom, mas em se tratando de Ozon, esperava-se algo mais profundo, mais complexo, mais provocante do que um filme apenas correto.
O francês Patrice Chéreau lidou com tema parecido (a espera da morte) em Irmãos e conseguiu um resultado bem superior. Nesse filme, a relação entre vida e morte, ou melhor, fim da existência, é esmiuçada de maneira bem mais profunda, num filme mais doloroso e emocionante. Ozon parece não ter percebido que um melodrama pede mais paixão, algo mais visceral, em que apenas a técnica não é suficiente.
