25/08/2026
Drama

Fora do Jogo

Estádio de Teerã, no dia do jogo eliminatório para a Copa do Mundo de 2006, entre o Irã e o Barein. Um grupo de moças decide desafiar a proibição de que mulheres entrem no estádio para assistir a jogos. Elas se disfarçam, pintam o rosto, mas não adianta. Presas pelos guardas, elas devem aguardar uma viatura que as leve à delegacia. Enquanto isso, usam seus melhores argumentos para dobrar os dois soldados que as vigiam.

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Não é a primeira vez que Panahi, um ex-assistente do consagrado diretor Abbas Kiarostami (no filme Através das Oliveiras, 1994), se volta para a discussão da condição feminina em seu país. No drama O Círculo, que lhe deu o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2001, ele retratava a discriminação que afetava as mulheres desde o seu nascimento, uma vez que o nascimento de meninas mostra-se menos valorizado por boa parte das famílias. Acompanhando um grupo de personagens, inclusive ex-presidiárias, Panahi pintava um retrato amargo do que é ser mulher no Irã.

Em Fora do Jogo, o enfoque é mais leve. Retrata um grupo de moças que procuram entrar no estádio de Teerã, no dia do jogo eliminatório entre o Irã e o Barein. Dessa partida, o Irã saiu classificado para a Copa do Mundo de 2006.

Como se fosse um documentário, o filme usa como locação o próprio estádio, no dia do jogo real. O clima documental é reforçado pelo uso da câmera na mão (pelo diretor de fotografia Mahmoud Kalari) e de atores não-profissionais, prática comum no cinema iraniano.

Assim, Fora do Jogo reproduz a tensão que afeta as moças que são fãs de futebol no Irã e tentam driblar a ridícula proibição de irem aos estádios – que, segundo o cineasta, não é oficial, mas é respeitada à risca, uma vez que foi confirmada pelo falecido aiatolá Khomeini.

Torcedoras fanáticas e mesmo praticantes do esporte - que, ironicamente, não lhes é proibido, respeitadas algumas condições -, elas se disfarçam o mais que podem, pintando o rosto com listras grossas nas cores da bandeira iraniana, cobrindo a cabeça com bonés e escondendo o corpo com roupas bem largas. No processo, contam inclusive com a cumplicidade de alguns rapazes, que até procuram ajudá-las a furar o cerco.

Mesmo assim, a rígida segurança identifica várias delas, que são presas e conduzidas a uma espécie de cercadinho, atrás do estádio. Dali, o máximo que conseguem é ouvir a manifestação da torcida, sem saber ao certo o que acontece no jogo. Devem esperar a chegada de uma viatura que as conduza a uma delegacia, onde chamarão seus pais – outra situação absurda, já que todas são maiores de idade.

Frustradas, as moças confrontam seus guardiões, dois jovens soldados (Safar Samandar e Mohamad Kheirabadi). Argumentam, ora com dureza, ora com diplomacia, para conseguirem sair, deixando-os sem saber o que dizer. Afinal, nenhum deles está muito convencido do valor de sua missão. Eles também querem ver o jogo, o que não podem, tanto quanto as moças. Numa situação sem sentido, os supostos opressores são também oprimidos.

Uma das seqüências mais engraçadas acontece quando uma garota convence um soldado de que precisa ir ao banheiro. Isso cria uma enorme confusão, já que os sanitários do estádio são todos masculinos, evidentemente. Por isso, o militar obriga todos os rapazes a sair, montando guarda para que a moça use um dos toaletes. Sua atitude provoca o maior tumulto e uma pequena surpresa.

Tanto quanto suas personagens, Jafar Panahi também força os limites. Ele não recebeu permissão oficial para filmar no estádio, mas prosseguiu no projeto, fingindo estar filmando outra coisa. Porém, mais do que esta pequena ousadia, é a própria temática de seus filmes que serve de justificativa para sua não-liberação nos cinemas de seu próprio país - o que afetou não só Fora do Jogo, como o citado O Círculo e também o drama Ouro Carmim (2003), todos exibidos no Brasil.

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