A primeira originalidade está em unir o intimista ao social sem costuras visíveis. Anna (Ariane) é uma cardiologista experimentada, única filha do viúvo Barsam (Marcel Bluwal). Quando seus exames demonstram a necessidade de uma cirurgia cardíaca, o velho volta secretamente à sua aldeia natal, na Armênia. À filha resta pouco mais do que segui-lo, ainda que não saiba exatamente onde procurá-lo.
Confiada a Sarkis (Simon Abkarian), que deverá servir-lhe como guia nessa nova realidade, Anna descobre um território estranho, especialmente para alguém que nem mesmo conhece a língua de seus pais. Ainda que só se comunicando com os raros que falam francês, Anna vira-se relativamente bem, particularmente depois de aceitar os serviços de um insistente motorista de táxi.
Através de personagens ambíguos, como o próprio Sarkis, o general-herói Yervanth (Gérard Meylan), a manicure Schaké (Chorik Grigorian) e o enfermeiro Simon (Jalil Jespert), o enredo se apossa dos aspectos não raro contraditórios do país em que Anna deve temporariamente viver. Contrabando, exploração de mulheres, pendências históricas com os turcos, conflitos de identidade pontuam a trajetória de Anna, que, num determinado momento mostra habilidades inesperadas – como o manejo de armas.
Do alto de seus saltos-agulha, Ariane Ascaride compõe uma heroína complexa e mesmo divertida. Com certeza, seu comportamente não é previsível, detalhe que sinaliza o frescor de visão que Guédiguian continua a manter. O melhor a fazer é segui-lo e encontrar atalhos nos caminhos em que nos conduz.
Ao núcleo habitual de seus filmes, como os atores Meylan e Jean-Pierre Darroussin (fazendo o papel de marido de Anna), o diretor acrescentou ainda Madeleine Guédiguian, filha do casal, e que na tela interpreta também a filha de Anna.
