Não há ninguém que filme o inconsciente com a voracidade de David Lynch. Um filme como este é uma viagem sensorial, uma ginástica puxada da imaginação – e ai daqueles cujos músculos mentais estiverem atrofiados.
O espectador é convidado a atravessar um umbral e, a partir dali, nada mais é garantido. Tudo pode acontecer, toda simbologia pode se instituir.
O que deflagra esta viagem – a visita de uma velha senhora (Grace Zabriskie) à vizinha. Esta é uma atriz, Nikki Grace (Laura Dern, numa interpretação admirável), que mora numa mansão de decoração um tanto clássica. Nada ali é ultramoderno, nem high tech – é uma casa-padrão da alta burguesia americana (talvez como o ambiente em que Lynch cresceu), há empregados sempre por perto, mordomo, camareira, acenando também para diferença de classes.
A velha senhora antecipa que a atriz fará um filme e mostra-lhe o futuro, que se desenrola como uma cena na sala ao lado, diante dos olhos atônitos de Nikki. A partir desse futuro, muitos planos se instalam: o do filme que se prepara, o de outro filme anterior que se tentou fazer baseado na mesma história, em polonês, e que acabou em morte; a curiosa sala dos “coelhinhos” ( a fantasia mais intrigante, um mundo paralelo entre os outros).
Nikki encarna e conduz esse paralelismo de mundos, carregando a própria existência familiar (o marido ciumento e ameaçador), a personagem do filme (Susan Blue, que se apaixona pelo colega casado, interpretado por Justin Theroux). É como se ela fosse abrindo portas (o que faz literalmente todo o tempo) e encontrando personagens de outras dimensões.
Os ambientes se sobrepõem, delimitando os habitats das diversas realidades. Há uma casa com jardim na frente, um quarto onde alguém dorme sob uma coberta verde, iluminado por vários abajures. Há uma insistente meia-luz quase sempre. Às vezes, a luz explode e cega, ao invés de revelar ou esclarecer qualquer coisa.
Indomável, Nikki/Susan prossegue. Entra num galpão misterioso, sobe uma escada, o rosto visivelmente marcado por algum golpe. Logo mais, encontra uma espécie de detetive (Lynch volta a símbolos de seus filmes anteriores, como Twin Peaks). Num cinema antigo, uma mulher que chora (polonesa) assiste à sobreposição de planos, fatos, ou o que quer que isto seja, numa tela. O cinema de Lynch olha incessantemente para dentro de si mesmo, desdobrando suas camadas.
Vê-se uma morte nas ruas de Los Angeles, onde a câmera passou, providencialmente, pela Calçada da Fama, salpicada de nomes de estrelas de Hollywood. Diálogos, todos incríveis.
E tudo termina numa grande dança feminina, onde aparecem atrizes/personagens, algumas de viagens anteriores do diretor, como Laura Herrington (a voz de Naomi Watts já aparecera antes, remetendo a Cidade dos Sonhos) – uma das cenas de visual mais bonito de todo o filme, de uma elegância proporcional à sua misteriosa graça.
