Baseado no primeiro livro da trilogia Fronteiras do Universo, do inglês Philip Pullman, trata-se de um filme cheio de conceitos e idéias que se atropelam, tentando comprimir quase 400 páginas em menos de duas horas. O resultado é que, enquanto no papel os personagens e os eventos têm um tempo para acontecer e se explicar, na tela tudo é muito apressado, confundindo aqueles que não estão familiarizados com a trama.
À primeira vista, A Bússola de Ouro parece dialogar com a série Harry Potter – embora os livros de Pullman sejam muito mais bem escritos. Porém, Fronteiras do Universo é uma espécie de contraponto involuntário a As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, pois aqui, o autor é completamente contrário a qualquer forma de religião institucionalizada. Esse ataque, em especial à Igreja Católica, é bem amenizado no filme.
O que se vê na tela são bons conceitos desperdiçados em meio à correria, e personagens – e público – perdidos. Lyra (a estreante Dakota Blue Richards) é uma órfã que vive numa universidade e encontra esporadicamente com seu tio, Lorde Asriel (Daniel Craig, o atual 007). Ela descobre que estão tentando matá-lo e ele sai em viagem. Enquanto isso, a menina vai morar com uma mulher, Marisa Coulter (Nicole Kidman, de As Horas). Marisa finge ser boazinha, mas seu visual de loira platinada hitchcokiana deixa claro que suas intenções não são nada boas.
Nesse universo paralelo, todos possuem um dimon – uma espécie de manifestação animal da alma das pessoas. Os dimons das crianças não possuem uma forma fixa e isso pode ser a causa de uma onda de seqüestros. Um grupo de pesquisadores pode estar tentando separar as crianças de seus dimons por uma espécie de cirurgia.
Antes de ir para a casa da sra. Coulter, Lyra recebe do reitor da universidade uma bússola que é capaz de descobrir a verdade sobre qualquer assunto – mas é preciso saber usá-la. A menina tem esse dom e poderá utilizar o instrumento até entregá-lo a seu tio, conforme manda o reitor.
Uma série de eventos acontecem – sem deixar muito claro como – e mais tarde vemos Lyra em companhia de um urso polar que poderia ser rei, mas foi excluído de seu bando por perder a armadura. Esse urso, chamado Iorek Byrnison (dublado por Ian McKellen, na versão original), se tornará o maior defensor de Lyra. Outros personagens interessantes do livro, como o piloto de balão Lee Scoresby (Sam Elliott, Hulk) e a bruxa Serafina Pekkala (Eva Green, de Os Sonhadores), passam quase batidos no filme.
O roteiro e a direção de Chris Weitz (Um Grande Garoto) são um convite a abandonar o filme antes do final – tal qual Lorde Asriel, que some bem antes da metade. Faltam ao longa graça e personalidade. É como pensar que um bando de crianças, animais fofinhos e um urso polar gigantesco criado por computador fossem o bastante para fazer um filme. O resultado, nesse universo ou em outro, é que A Bússola de Ouro não encanta, nem empolga. Resta saber se os dois outros livros da trilogia terão melhor sorte em suas previstas adaptações para o cinema.
