O filme é feliz nessa fusão do que é pequeno e grande, do particular e do geral, porque se ampara num ritmo suave, que dá tempo a várias histórias de se revelarem. O fio condutor está nas mãos da astróloga Teca (a própria Bruna), que tem um programa de rádio. Teca acolhe, escuta, dá conselhos. E testa os limites de seus pequenos poderes.
Nem sempre a astróloga dá conta de melhorar essas vidas, nem mesmo a sua própria anda tão bem. Magoada pela separação recente, ela se envolve na vida dos vizinhos, o atraente Gil (Malvino Salvador) e sua mulher (Denise Fraga), que também estão em crise.
Com o próprio pai (Juca de Oliveira). Teca vive um dilema bem mais forte e antigo. A amiga de sua mãe que morreu (Eva Wilma), que ela sempre viu como uma espécie de tia, tem um segredo para lhe contar.
O mundo lá fora anda pesado. Racismo, como o vivido tanto pelo enfermeiro Sombra (Luís Miranda) e o travesti Josialdo (Sidney Santiago, de Os Doze Trabalhos). Inadequação, como o emo Biô (Bethito Tavares), mergulhando nas baladas em busca de diversão e amor. A mesma busca, aliás, de Mônica (Graziella Moretto), a divertida assistente da astróloga, que se envolve com um malandro (Fernando Alves Pinto).
A chave da história é essa dor humana que não se pode evitar, por mais remédios que se procurem. Esta astróloga não tem a pretensão de ser mágica. Muito pelo contrário. Ela tem total consciência de suas limitações esotéricas – que ela mesma encara como uma espécie de apoio – e busca ajudar as pessoas dentro dos limites mais concretos, como o da solidariedade. É como pessoa que Teca vai ao encontro dos outros, não como bruxa. Desse ponto de vista, emanam momentos bonitos entre pessoas perdidas, como Gabriel (o estreante Kim Riccelli, filho de Bruna e Carlos Alberto) e Júlia (Laís Marques).
O Signo da Cidade apóia-se numa dramaturgia crível, nenhuma demagogia e um legítimo interesse pelo ser humano, tudo isso coroado por direção e câmera sutis (ótima direção de fotografia de Marcelo Trotta), que revela uma São Paulo dúbia e generosa como realmente é.
