Membro de uma família liberal, em que se contam alguns militantes políticos mortos na prisão na época do xá e de seu pai, Marjane foi mandada para estudar na Áustria aos 14 anos. Voltou ao seu país, viveu na pele a repressão fundamentalista e decidiu morar definitivamente na França, em 1994.
Foi na França que ela se tornou famosa como a autora da graphic novel Persépolis, já lançada no Brasil. Para realizar o filme, ela associou-se ao francês Vincent Paronnaud, também desenhista e diretor de curtas-metragens. Este é o primeiro longa dos dois e venceu no Festival de Cannes 2007 o Grande Prêmio do Júri.
A premiação assumiu um significado político, já que o governo iraniano havia protestado formalmente contra sua inclusão, uma vez que Marjane, radicada na França, faz duras críticas ao atual regime de seu país. O protesto mereceu resposta formal da organização do festival. O júri presidido pelo cineasta inglês Stephen Frears, ao premiá-lo, reafirmou a independência do festival.
Para platéias acostumadas à avalanche de efeitos digitais das animações norte-americanas, o visual despojado, em preto-e-branco como a graphic novel, poderá parecer modesto. Na verdade, é muito adequado ao conteúdo que transmite e tem valor suficiente para justificar sua merecida indicação ao Oscar de melhor animação em 2008. O foco de Persépolis, porém, está menos numa procura de espetáculo visual e mais no tom confessional, imprimido por Marjane ao contar suas aventuras. Rebelde e irônica, ela cria uma inegável cumplicidade com o público, que torce por ela quando enfrenta os chamados “guardiões da revolução”, que a perseguem quando tenta dizer o que pensa e procura driblar o rígido figurino feminino imposto às mulheres depois da revolução – onde o xador tornou-se peça obrigatória.
Sem que essa seja sua intenção principal, o filme tem uma pegada feminista, inevitável no contexto que retrata. Por sorte, Marjane teve pais com cultura e dinheiro suficiente para preservar sua liberdade, educando-a longe do país naquele momento extremo – embora ao preço inegável, para a menina, de crescer sozinha em ambientes não raro hostis a estrangeiros, especialmente uma iraniana. O fundamentalismo da Europa ocidental também existe e, como se sabe, seu alvo preferencial é voltado a muçulmanos.
Mesmo lidando com vários temas densos, o filme consegue ser divertido em vários momentos. E, o que é melhor, sem fazer concessões comprometedoras.
