Encabeçando por muitos anos as melhores listas internacionais como melhor filme de todos os tempos, Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, é um título para ver e rever muitas vezes ao longo da vida. Não só pela excelência inequívoca da obra como pela persistência da repercussão de seus temas - hoje em dia, as fake news, a destruição de reputações, entre as principais.
No tempo da história, não havia ainda redes sociais, imperavam soberanos jornais como o The New York Enquirer que o milionário Charles Foster Kane (Welles) transforma em seu hobby, sua razão de viver, sua metralhadora giratória para abrir caminho num mundo que não lhe negava nada, dada a grande riqueza que acumulara nas mãos e lhe permitia ignorar limites nas direções que o diário tomava.
O que perdura como marca mais impressionante desta obra marcante é menos o que ela diz a respeito de seu polêmico protagonista e mais a maneira como o faz - recorrendo de maneira criativa a flashbacks e movimentos de câmera que não eram comuns até ali, com a câmera focalizando seus personagens de baixo para cima, iluminações inesperadas, closes extremos, estas algumas das façanhas da fotografia inspirada de Gregg Toland.
O roteiro, vencedor do Oscar, e assinado por Welles e Herman Mankiewicz, vale-se dessa fotografia, assim como da música do veterano Bernard Hermann, para compor na tela a saga de um homem ambíguo, dotado de múltiplas facetas, como um diamante que a luz, ao incidir, revelasse cada uma de suas ranhuras.
É impressionante como o diretor iniciante, de 25 anos, que já era uma estrela no teatro e na rádio (onde fizera sensação com uma audição de Guerra dos Mundos) e teve, por isso, grande liberdade no comando do projeto - certamente escudado na convivência com tantas veteranos de peso -, acerta no tom ambíguo para traçar a trajetória de um homem cuja ascensão social o descola cada vez mais de um amadurecimento emocional, sem que, com isso, a narrativa se torne piedosa com sua impulsividade e desejo de controle de tudo e todos à sua volta.
Ao fazê-lo com tanta honestidade e virulência, paradoxalmente, o filme humaniza Kane num filme que começa com sua morte e o lançamento de uma palavra final, “rosebud”, que dispara essa viagem no tempo que procura pistas de uma identidade misteriosa de trás para a frente e nunca perde o rumo. Se Cidadão Kane tornou-se um modelo de uma cinebiografia anticonvencional, também foi por traduzir em imagens um mergulho no coração sombrio e complexo da humanidade em busca de poder.
As semelhanças do personagem com uma figura real, o magnata da imprensa William Randolph Hearst, nunca foram mera coincidência, rendendo a Welles não poucos problemas. O todo-poderoso Hearst chegou a tentar impedir a circulação do filme, acusando Welles de “comunista” - um golpe baixo que tinha particular ressonância e encerrava perigos nos tempos da Guerra Fria e do macartismo. Nada disso impediu a repercussão do filme que, por décadas e décadas, continua a vibrar como um dos melhores filmes já feitos.
